terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Wagner Moura: “A PM é treinada para proteger o Estado, não o cidadão”

Diretamente da Colômbia, onde está gravando a segunda temporada da série Narcos, o ator falou com exclusividade à Fórum sobre desmilitarização da polícia, legalização das drogas, trabalho escravo, os desafios da realidade social latino-americana e o projeto de dirigir um filme sobre o guerrilheiro Marighella; 



De volta à Colômbia para as gravações da segunda temporada da série Narcos, da Netflix, em que interpreta o traficante Pablo Escobar, o ator Wagner Moura conversou com a Fórum sobre a realidade social da América Latina, o seu engajamento na luta contra o trabalho escravo, a disseminação do conservadorismo e da intolerância no Brasil e a estreia como diretor em um longa-metragem que traz como foco a biografia do líder comunista Carlos Marighella.

O ator ainda critica a atuação da polícia militar brasileira. Segundo ele, a corporação vê como inimigos os moradores de comunidades pobres e reforça a política equivocada de “guerra às drogas”, que gera mortes e violência, mas não resolve o problema do tráfico. Wagner lembra que essa é uma metodologia importada dos Estados Unidos, um dos países que mais consomem drogas no mundo, restando à população latina o ônus desse mercado.

Ele alerta para a necessidade de desmilitarização da polícia como uma maneira de coibir atos de tortura, abusos e outras violações de direitos vistas com frequência no país. “A PM é treinada para proteger o Estado, não o cidadão. Para isso é treinado qualquer militar. Basta ver como age a PM contra manifestantes”, denuncia.
Leia abaixo a entrevista na íntegra.

Fórum – A imersão na história de Pablo Escobar te trouxe uma conexão maior com os desafios e as especificidades da realidade latino-americana? Como está sendo a experiência de viver na Colômbia?
Wagner Moura – Nunca me senti um estrangeiro na Colômbia. Somos muito parecidos, brasileiros e colombianos. Aqui também houve escravidão, por exemplo, e há uma significativa população negra, especialmente na costa do Pacífico. A Colômbia é a segunda maior economia sul-americana, depois do Brasil. Um país que, claro, sofre das mesmas mazelas da maioria dos países latino-americanos, como pobreza, diferença social e violência, mas que superou de forma extraordinária o passado recente de narcoterrorismo.
Todos os países da América do Sul tiveram uma forte influência política dos Estados Unidos, especialmente depois da revolução cubana. Na maior parte das vezes, os americanos forjaram ditaduras militares de extrema-direita, o que não aconteceu com a Colômbia. Aqui a influência americana veio no nascedouro da política de combate às drogas.

A Colômbia é um país que soube se reconstruir de forma espetacular. Medellin é hoje uma cidade modelo. Os investimentos em mobilidade urbana como forma de ascensão social lá são impressionantes. Vejo a Colômbia como uma das democracias mais estabelecidas da América Latina e as negociações de paz com as Farc só ratificam isso.

Estar morando aqui por tanto tempo me trouxe uma noção maior de pertencimento a algo mais profundo do que ser apenas brasileiro. O sentimento de ser um cidadão latino-americano, eu o ganhei na Colômbia. Claro que cada país latino tem suas especificidades e aqui há uma história complexa de violência que remonta as primeiras décadas do século XX quando os partidos Liberal e Conservador se enfrentavam com facões nas ruas.

Na Colômbia há guerrilha, paramilitarismo e, por conta do narcotráfico, Bogotá foi considerada a cidade mais perigosa do mundo nos anos 80. Esse cenário parece ir se modificando muito rapidamente. Tem sido uma grande experiência e aprendizado viver aqui.

Fórum – Puxando para o contexto brasileiro, de que forma você vê a chamada “guerra às drogas” e a militarização da polícia?
Wagner Moura – A polícia precisa ser desmilitarizada. A PM é treinada para proteger o Estado, não o cidadão. Para isso é treinado qualquer militar. Basta ver como age a PM contra manifestantes e, especialmente, contra aqueles considerados “inimigos do Estado”.
No Brasil, o morador de favela assume a função de “inimigo do Estado” toda vez que tem sua casa invadida sem mandato judicial, toda vez que é vítima de abusos, tortura, toda vez que tem seus direitos desrespeitados por agentes do governo. É nas favelas que a polícia atua na guerra às drogas.

Essa política de enfrentamento é uma orientação dos Estados Unidos para toda a região sul-americana. Os Estados Unidos são os maiores consumidores de drogas do mundo, mas essa guerra não acontece no território deles, ela se dá nos bolsões de pobreza dos países produtores e exportadores.
Está claro que é uma política falida que só gera mortes e violência na América Latina. As drogas são um problema sério de saúde e devem ser tratadas como tal. O Estado tem que legalizá-las, controlá-las e tratar seus dependentes e não gastar rios de dinheiro com essa guerra sem sentido.

Fórum – Com o recrudescimento da direita no país, temos chances de avançar, de fato, nesse debate?
Wagner Moura – É um debate inevitável, assim como o do aquecimento global. Pode demorar mais tempo, dadas as circunstâncias políticas atuais, mas certamente vamos chegar à conclusão de que a política de enfrentamento é um fracasso total, especialmente para os países pobres. É uma questão de tempo. O bom senso uma hora prevalece.

Fórum – E, no meio de toda essa onda conservadora, você estreia como diretor em um filme sobre o Marighella. O que te motivou a encarar esse projeto?
Wagner Moura – Queria entender essa geração, tão próxima da minha, que lutou contra a ditadura militar. Não gosto de armas, mas entendo que para muitos, naquela época, diante de uma ditadura truculenta, essa era a única opção. Respeito essa decisão.
Marighella sempre foi uma figura por quem eu tive admiração. Era um homem honesto, corajoso, baiano e cheio de carisma, um ótimo personagem para um filme de ação para adultos e uma figura fundamental de nossa história recente.

Fórum – Sua participação junto à OIT na campanha ’50 for Freedom’ tem chamado a atenção para a necessidade de combate ao trabalho forçado. Essa chaga herdada da escravidão encontra eco em uma elite pouco disposta a abrir mão de seus privilégios?
Wagner Moura – É da natureza de qualquer grupo dominante ser resistente a mudanças. No Brasil, isso se nota claramente, por exemplo, no comportamento do setor do agronegócio. Eles são muito organizados, têm uma bancada grande no Congresso e trabalham abertamente por aberrações como a aprovação do novo Código Florestal.
É a bancada do agronegócio que tenta, na surdina, mudar a definição brasileira de trabalho escravo, a mais moderna do mundo. Mas não são só eles, as construtoras, todas essas aí envolvidas na [Operação] Lava-Jato, foram as responsáveis pela pressão que fez o Supremo suspender a Lista Suja do Trabalho Escravo, um instrumento sem igual no mundo.

Ou seja, são elites atrasadas que ainda jogam o jogo do lucro acima de tudo. E isso não é só no Brasil. As grandes empresas de roupa norte-americanas escravizam trabalhadores em países pobres e não estão nem aí, desde que a produção seja mais barata. Não enxergam o cara lá nos confins da Índia como um ser humano; é uma total falta de empatia com o outro.

Fórum – Nós temos visto uma disseminação do discurso de ódio ligado à intolerância religiosa, ao racismo, ao machismo e à homofobia. Você acha que essa reação desmedida tem a ver com as mudanças sociais pelas quais o país vem passando e o empoderamento de segmentos antes marginalizados?
Wagner Moura – Eu acho que sempre houve um rancor represado desse apoderamento, mas antes não pegava bem expressar esse rancor. Hoje, com a derrocada moral do PT, com a última eleição tão acirrada, com o país em crise, com essa oposição golpista, esse tipo de discurso foi perdendo o medo da exposição.

O PT não só levou o país a uma crise econômica e política gigantesca, como desmoralizou toda sorte de ideias progressistas que gravitavam ao seu redor. Vivemos um evidente retrocesso em quase todas as áreas, mas é, naturalmente, um péssimo momento para a defesa dos direitos humanos, dos direitos civis, da tolerância religiosa, da ecologia, da sustentabilidade, dos projetos sociais, da transferência de renda etc. O pessoal perdeu a vergonha.

Foto de capa: Netflix

1 COMENTE! :

Carolina Veloso disse...

Muito bom esse cara. Além de ótimo ator!