domingo, 18 de maio de 2014

Wagner Moura: "Redes sociais não passam de revista 'Caras' autoeditada"

Ao iG, ator fala sobre o excesso de exposição de artistas e comenta o filme "Praia do Futuro", que estreia nesta quinta e no qual interpreta um salva-vidas homossexual.

Em "Praia do Futuro", filme de Karim Aïnouz que estreia nesta quinta (15), Wagner Moura interpreta Donato, um salva-vidas homossexual que abandona a família no Brasil para viver um amor na Alemanha. Segundo o ator, talvez seja o personagem mais próximo do Capitão Nascimento, o policial durão de "Tropa de Elite".

"É um militar, um herói trágico, humano", explica Moura, em entrevista ao iG. "Acho bobo alguém dizer que é o oposto do Capitão Nascimento, como quem diz: 'Esse cara é gay, então é diferente'. Como se um cara gay não pudesse também ser herói, viril, fodão."

A comparação fora feita durante uma entrevista coletiva na semana passada em São Paulo, momentos antes de Moura falar ao iG e dizer que tratava-se, também, de uma provocação. Durante a coletiva, o ator se mostrou incomodado com perguntas sobre a preparação para interpretar um homossexual e sobre o que um ator perdia ou ganhava ao se assumir gay.

Moura, que geralmente fala pausadamente e baixo, por vezes com uma das mãos na boca, fica mais assertivo ao defender que "Praia do Futuro" é mais do que uma história gay ("Não venha reduzir meu filme a um sensacionalismo barato para vender jornal") e a importância de atores preservarem sua intimidade e manterem certo mistério.

"Independentemente de eu ser ator, de trabalhar com isso, ninguém tem de saber da minha vida", diz Moura, que não pretende se unir ao extenso time de artistas com perfis no Twitter ou no Facebook. "Já era (difícil) com as revistas de fofoca. Agora eu vejo esse negócio de rede social, que não passa de uma revista 'Caras' autoeditada... a mim não interessa."

Na entrevista a seguir, Moura fala sobre o personagem em "Praia do Futuro", o impacto da televisão e da internet na produção audiovisual (ele se prepara para interpretar Pablo Escobar em uma série do Netflix e sua estreia na direção, com "Marighella": 

iG: Você disse que Donato talvez seja seu personagem mais próximo do Capitão Nascimento. Em que sentido?
Wagner Moura: Porque é um militar, um herói trágico, humano. Acho que talvez seja o personagem mais parecido. Mas digo isso de forma meio provocativa, porque acho bobo alguém dizer que Donato é o oposto do Capitão Nascimento, como quem diz: 'Esse cara é gay, então é diferente'. Como se um cara gay não pudesse também ser herói, viril, fodão. Claro, não são personagens parecidos. Gosto de pensar que em cada filme faço um personagem diferente. Mas respondo isso de forma provocadora.
iG: Acha que filmes como "Praia do Futuro", ou o beijo gay na novela, ajudam no debate sobre igualdade?
Moura: Espero que sim. Espero que o mundo caminhe para isso... porque não quero esperar pelo oposto. Quero que quando meus filhos cresçam, isto não seja uma questão. E acho que é uma responsabilidade nossa, de nós todos. A gente faz os filmes, vocês (jornalistas) falam sobre os filmes. Talvez não ajude se escolhermos um caminho fácil para falar desse filme, um caminho que talvez venda mais jornal. Falar que é o filme gay, em que o Wagner é gay, em que o Capitão Nascimento fica gay... é uma opção, mas acho rasteiro. Por isso às vezes temos de responder algumas perguntas com mais veemência. O filme é lindo, uma obra de arte de um dos diretores mais importantes do País, um trabalho da porra. Não venha reduzir meu filme a um sensacionalismo barato para vender jornal.

iG: Você já criticou revistas de celebridades e em geral consegue preservar bastante a privacidade. Como fazer isso?
Moura: Uma coisa básica para mim é a minha vida pessoal. Independentemente de eu ser ator, de trabalhar com isso, ninguém tem de saber da minha vida. Já era (difícil) com as revistas de fofoca. Agora vejo esse negócio de rede social, que não passa de uma revista "Caras" autoeditada... Sou do 1% (dos artistas) que não tem (rede social) e não estou falando mal de quem tem. Mas acho que é uma exposição muito grande. O cara coloca foto dele com as crianças... não sei, é minha opinião. E fico muito feliz de preservar meu tempo para as relações, de não ficar no computador com sei lá quantos mil amigos que nem sei quem são. Isso é muito louco. Talvez seja um coisa de geração, talvez eu já seja um espírito velho para essas coisas. A mim não interessa.


iG: Você é a favor de medidas governamentais para estimular a competição do filme brasileiro em relação ao estrangeiro?
Moura: Sou a favor do intervencionismo, do protecionismo em todas as searas. Não sou a favor da privatização da Petrobras, sou a favor da intervenção do Estado para proteger o mercado, para proteger a indústria brasileira. E assim com o cinema também. Não é uma competição justa "Homem-Aranha" contra "Praia do Futuro". Tem de existir proteção, sim.

iG: Você fará uma série do Netflix. Acha que serviços on demand e via streaming podem facilitar o acesso a filmes como "Praia do Futuro"?
Moura: Parece que essa coisa da televisão e da internet já está mudando muito o jogo. A reserva criativa do audiovisual norte-americano é a televisão, eles fazem TV melhor do que cinema. Isso já é uma realidade no mundo. Aqui no Brasil, as classes C e D, se é que se pode categorizar assim, têm TV a cabo. Entao as referências estéticas das pessoas que estão vendo televisão não são mais as novelas da Globo. É "Breaking Bad", é "House of Cards". 

A própria Globo já entendeu que não briga mais com a Record, briga com HBO, Netflix. Você vê na própria Rede Globo um movimento em direção a uma mudança estética. Eles contrataram gente de cinema, roteirista de cinema. O Bráulio Mantovani está na Globo e não quer sair de lá. Eles estão fazendo coisas legais, como "Amores Roubados", a Amora Mautner e o José Luiz Villamarim ganharam núcleos. Eu não trabalho na Globo há muitos anos, mas acompanho esse movimento.

iG: No caso do cinema, pode reduzir a dependência em relação às salas?
Moura: Sim, porque no Brasil não tem sala. O Brasil tem menos sala do que a Argentina, o que é ridículo (de acordo com a Ancine, o Brasil tem uma sala de cinema para cada 75 mil habitantes; a Argentina tem uma para cada 51 mil). Aqui não tem sala, especialmente na periferia. É uma alternativa, embora a experiência de assistir a um filme no cinema seja única. Não é igual a ver em casa.

iG: Você elogiou muito o fato de "Praia do Futuro" ser um filme de silêncios. Como esse silêncio é colocado nas páginas do roteiro?
Moura: Pois é, tenho pensado muito nisso. Não sei, é uma dificuldade muito grande mesmo, especialmente no cinema brasileiro: como resolver as cenas sem falação. Sou um ator que gosta muito de cortar texto. Estou trabalhando num roteiro com o Felipe Braga (o de "Marighella", estreia de Moura na direção) e a gente se cobra muito: o personagem precisa falar isso mesmo? Como um roteirista diz alguma coisa se não for escrevendo? Por isso digo que "Praia do Futuro" é muito sofisticado e complexo.

iG: Como está a produção de "Marighella"?
Moura: Está indo muito bem. O Felipe está escrevendo e vai ser um filme muito grande. É um negócio de adulto. Vai ser um filme caro, com reconstituição histórica, filmagem fora do Brasil. Então a gente precisar ter um tempo. É o meu primeiro. Achávamos que íamos filmar no final de 2015, agora com a série do Netflix passou para meados de 2016. É um tempo bom para a gente captar, porque o filme vai custar mais de R$ 10 milhões.

iG: Já começaram a captação?
Moura: Já. Estamos fechando acordo com o distribuidor, amarrando com a Globo Filmes e captando. Leva tempo, você não capta esse dinheiro todo assim. Mas vai rolar.

Fonte: Ig