sexta-feira, 2 de maio de 2014

Wagner Moura e Karim Aïnouz falam sobre 'Praia do Futuro' em Fortaleza

Capital cearense recebeu primeira exibição nacional do filme. Quinto longa de Karim Aïnouz estreia dia 15 de maio no Brasil.

Sávio Ygor, Karim Aïnouz e Wagner Moura (Foto: Gabriela Alves/G1 CE)

O ator Wagner Moura e o diretor Karim Aïnouz estiveram em Fortaleza para a primeira exibição nacional do filme "Praia do Futuro" no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Durante entrevista a  imprensa nesta quarta-feira (30), Wagner Moura confessou que sentiu dificuldade para compor o salva-vidas Donato. "É o personagem mais complexo que fiz. Existe um universo muito grande dentro dele. Você entende muito mais ele pelo o que faz do que pelo o que fala. Tem uma fisicalidade nele que é muito mais reveladora do que ele diz. É um filme muito silencioso", afirmou Wagner.

No longa que estreia no Brasil no dia 15 de maio, Wagner Moura interpreta um salva-vidas que trabalha na Praia do Futuro, na capital cearense. A história começa quando Donato “perde alguém pela primeira vez” no mar. A partir daí, Donato conhece e se envolve com o alemão Konrad, interpretado pelo ator Clemens Schick, um piloto de motovelocidade. O guarda-vidas vai para Berlim e desaparece, deixando o irmão mais novo Ayrton para trás. Anos depois, Ayrton, já adolescente e vivido por Jesuíta Barbosa, viaja em busca do irmão que considerava seu herói.

Urso de Ouro
'Praia do Futuro' estreia no Brasil com elogios da crítica internacional. O filme foi um dos indicados deste ano à mostra competitiva do Urso de Ouro, no Festival de Cinema de Berlim. "Eu estava achando que eu dava sorte. O filme foi muito melhor recebido do que o Tropa de Elite. A gente teve uma crítica consagradora na (revista) Variety logo de cara. Todo mundo gostando muito do filme. Foi diferente", conta Wagner.

'Aventurar pelo mundo'
Para o guarda-vidas, o mar que ele olhava todos os dias em busca de vidas para salvar tornou-se a fronteira para uma outra vida, uma outra maneira de ser. "Para mim, como para o Karim, acho que o filme parte da possibilidade de se reinventar. De você ser quem quiser, recomeçar do zero", diz Wagner.

Com temas recorrentes como abandono, fuga, não pertencimento ao lugar, Karim fala que nem tudo é uma questão de decisão nos seus trabalhos. "Me interesso muito pela questão do se aventurar pelo mundo. Subjetivamente, é um assunto sempre presente. O filme fala da coragem de se aventurar, de sair de casa e mergulhar em lugar que você não conhece. Eu acho que a sensação de não pertencimento é totalmente libertador e inspirador para o ser humano", explica o diretor.

Em Praia do Futuro, Karim não se preocupa em deixar lacunas para serem preenchidas pelo público. "Nem todas as respostas precisam ser anunciadas, mas elas podem ser sentidas. Eu queria muito propor no filme uma certa generosidade com o expectador. É muito importante que o expectador também consiga se colocar na pele do personagem e dê algumas respostas".

Melodrama masculino
Karim Aïnouz é reconhecido por traçar bem perfis femininos, como em o "Céu de Suely" e "O Abismo Prateado" e na série "Alice". Em Praia do Futuro, ele conta os dramas de três homens. "Tinha muita vontade de fazer um gênero que eu adoro só com homens. O melodrama é território muito do feminino.Tinha vontade de fazer isso como um território novo e adentrar no universo masculino, da moto, de viajar, de super herói, de brincadeira", conta o diretor.

O nome Donato para o guarda-vidas cearense, muito bem interpretado por Wagner Moura sem sotaque e trejeitos caricatos, foi sugestão de Felipe Bragança, outro roteirista do filme. Já o nome de Ayrton, foi pensado por Karim Aïonouz em referência ao piloto Ayrton Senna. "Ele nasceu em 94, gosta muito de velocidade". 

Conexão Fortaleza - Berlim
As duas primeiras exibições de Praia do Futuro aconteceram nas cidades onde passa a história do longa. "Tinha que ser assim. Em Fortaleza e Berlim", diz Karim Ainouz. Para o diretor, a conexão entre Fortaleza e Berlim começou antes do roteiro de 'Praia do Futuro' ser pensado. Karim nasceu em Fortaleza e, atualmente, mora em Berlim.

"No começo, essa conexão foi meio absurda. Eu dizia: 'Mas o que tem a ver esses dois lugares além do fato de eu gostar desses dois lugares tão profudanemente?'. À medida que a gente foi adentrando, a pergunta do filme é mais por que esses dois lugares me interessam tanto".

Karim encontrou semelhanças entre as duas cidades. "Eu ia para Praia do Futuro e parecia que tava em uma guerra, tinha uns prédios que ficavam, uns apartamentos para alugar, um monte de lote vazio. Berlim é muito isso. Tem esses lugares vazios, que estão a ser ocupados. É engraçado que é um lugar para ser abandonado e outro é lugar que está sendo ocupado", conclui.

Ao projetar Fortaleza na tela, Karim revela que sempre desejou "imortalizar" a Praia do Futuro. "O cinema tem essas coisas. Eu queria que ficasse para sempre a memória da praia". No álbum de Karim, a Praia do Futuro vem com cores e recortes incomuns para quem a conhece só como um ponto turístico.

O lugar aparece carregado de sensações e poesia. Em um das falas de Donato, que poderia ser do fortalezense Karim, o salva-vidas conta que o índice de salinidade da Praia do Futuro é o segundo mundial e só perde para o Mar Morto. "Sempre achei a história do lugar ser corroído pelo sal uma poesia impagável. Você não sabe o que ali vai virar".

Fonte: G1