sábado, 4 de janeiro de 2014

Duas pontas

Na abertura da série sobre os caminhos da cultura nacional, ator defende criação que supere o ‘sanduíche dicotômico’ que divide cineastas


Quando saí de Salvador em 1999 e vim para o Rio de Janeiro fazer a peça “A máquina”, eu queria muito trabalhar em filmes. “Carlota Joaquina” já era um marco, “O quatrilho” havia sido indicado ao Oscar e “Terra estrangeira” tinha pirado minha cabeça na Sala Walter da Silveira, mas em 1999 a produção cinematográfica brasileira não estava nem perto do que é hoje. Mesmo assim rolava a sensação de que aquela era a hora de fazer cinema no Brasil para uma geração de atores que cresceu (não) vendo as pornochanchadas e testemunhando Collor acabar com a Embrafilme. Para quem não morava no Rio ou em São Paulo era ainda mais complicado. O cara que fazia teatro na Bahia nos anos 1990 não podia querer fazer outra coisa a não ser teatro na Bahia nos anos 1990, o que forjou uma geração de orgulhosos atores do palco baiano, mas com pouca ambição de trabalhar em filmes na terra de Glauber Rocha e Roberto Pires.

Nos anos 2000, no entanto, aconteceu um fenômeno curioso que favoreceu os que não falavam carioca. Os produtores de cinema do Sudeste estavam justamente procurando rostos e sotaques diferentes dos que já eram conhecidos da TV. Um preconceito às avessas. Se você não era bom para a TV porque era nordestino e desconhecido, para alguns filmes do início da retomada o seu valor era justamente este. Arrisco dizer que a porção do Cinema Novo interessada em problematizar a representação de personagens “do povo” era ainda a referência mais próxima para muitos jovens diretores daquela época. Poucos filmes desses primeiros anos retrataram o amor burguês, uma vez que essa função parecia caber às novelas. Divago nesse prólogo autorreferente para dizer que é muito bom perceber que limites e preconceitos fazem cada vez menos sentido no panorama mais plural do audiovisual brasileiro de hoje. A TV tem sido muito mais receptiva a novos rostos e sotaques e, no cinema, bombam as comédias urbanas com atores famosos — embora haja muito mais acontecendo no cinema brasileiro do que talvez suponha o habitual espectador das neochanchadas. O que mais gosto quando olho para a produção dessa segunda década do século XXI talvez seja justamente a constatação de um evidente avanço em direção a uma maior diversidade. Ainda falta muito, mas de 1999 pra cá já mudou pra caramba.

Como classificar um filme extraordinário como “O som ao redor”? E por que colocá-lo em oposição a “De pernas pro ar 2”? Uma cinematografia rica deve ser justamente aquela que contempla uma gama maior de produções, não obstante umas precisem ser mais incentivadas pelo Estado do que outras. Jornalistas estrangeiros me perguntam por que os filmes brasileiros são sempre violentos. Eu respondo que aqui há vários tipos de filmes sendo feitos, eles é que, por alguma razão, gostam de escolher os violentos para os festivais. E mais, pondero que “Cidade de Deus” e “Tropa de elite” estão inseridos numa tradição histórica do cinema nacional que transcende a violência: entender o Brasil; falar de suas mazelas, de suas contradições políticas e sociais. Humberto Mauro fez “Favela dos meus amores” nos anos 1930! O Cinema Novo tinha um projeto de cultura, de país e de linguagem e alguns filmes do movimento também dialogavam bastante com o grande público, o que reforça minha certeza de que não há contradição alguma entre discurso crítico e sucesso popular. Por que diabos quando um filme começa a obter valor comercial, imediatamente passa a perder valor artístico, independentemente da análise do valor mais importante, que é o estético? Shakespeare escrevia pra galera. Os próprios caras da Nouvelle Vague eram fãs de Hitchcock, mestre do cinema de gênero e das bilheterias gordas. É claro que há obras diferentes para públicos diferentes, mas eu particularmente vou sempre trabalhar para que qualquer filme que eu faça seja visto pelo maior número possível de pessoas. Os filmes ditos médios, por exemplo, espremidos nesse bizarro sanduíche dicotômico que tem mobilizado as discussões sobre cinema por aqui, precisam encontrar seu público, coisa que parece ainda não ter acontecido.

Penso que não tergiverso ao falar de tradição e de mercado para dizer que a diversidade é um valor em si e que esta já é uma marca, não só do que tem sido feito no cinema do Brasil dos últimos anos, mas de qualquer cinematografia que almeja a maturidade. “Uma história de amor e fúria” acabou de ganhar o principal prêmio para filmes de animação no mundo, o mercado se anima com a possível tendência às biografias musicais, e o cinema pernambucano segue como dos mais inventivos do país. Outro dia li na “Folha de S.Paulo” que há vários jovens cineastas brasileiros fazendo curtas de ficção científica com efeitos visuais dignos de Hollywood.

Não é à toa que isso acontece num momento em que a película dá lugar ao digital de forma definitiva. Me vi outro dia explicando a uma jovem atriz como funcionava uma câmera de 35mm, já que ela nunca havia visto uma. Esses garotos com suas 5Ds fazem com que a história da câmera na mão e ideia na cabeça ganhe uma nova dimensão. Me impressiono sempre que encontro algum desses meninos que dominam naturalmente as tecnologias, conhecem de Mario Peixoto a JB Tanko e têm milhões de outras referências das quais eu nunca ouvi falar. Esses caras vão fazer o cinema brasileiro do futuro até com a câmera do iPhone. Alguns optarão por um caminho mais experimental, outros por um diálogo mais aberto com o público. Serão deles os filmes escolhidos para nos representar em festivais internacionais ou levar multidões às salas para ver cinema falado em português. Eu sonho com os que juntam as duas pontas.

Fonte: O Globo