domingo, 15 de maio de 2011

A longa jornada de pai para filho

Enquanto filma 'A Cadeira do Pai', ele prepara sua estreia em Hollywood.

Novo caminho. 'Theo é um médico acostumado a controlar tudo. Em sua busca pelo filho, aprende a ver a vida de outra forma'



Wagner Moura, como gosta de dizer, tem só 34 anos, mas já é um ator rodadinho. Formado em jornalismo, começou nos palcos nos anos 1990 e "incrivelmente passou a ganhar mais dinheiro como ator do que como jornalista". Ganhou notoriedade com A Máquina, de João Falcão, em 2006. Desde então, fez TV, 18 filmes, estrelou o fenômeno Tropa de Elite, tornou-se produtor (de Tropa 2), prepara-se para produzir outro longa, Serra Pelada, de Heitor Dhalia. Está em cartaz no cinema com VIPs, de Toniko Melo, aguarda a estreia de O Homem do Futuro, de Claudio Torres, e roda atualmente A Cadeira do Pai, de Luciano Moura. Para completar, em julho fará um vilão e atuará ao lado de Matt Damon e Jodie Foster em seu primeiro filme estrangeiro, Elysium, de Neill Blomkamp (Distrito 9).
Com um currículo extenso, o que falta a este baiano que mora no Rio? Talvez finalmente fazer seu primeiro filme adulto. "Não confundir adulto com pornô", brincou o ator em conversa com o Estado em seu trailer, no intervalo de filmagem de A Cadeira do Pai. "Este é meu primeiro "drama-thriller-road movie" e, ao mesmo tempo, meu principal papel como pai."

Na trama, ele é o médico Theo, que cresceu com um pai ausente (Lima Duarte), até se tornar um controlador: não consegue se entender com o filho adolescente Pedro (Brás Antunes) e ainda passa por uma separação complicada. Tudo vai mal até que o filho ganha uma cadeira, que pertenceu ao pai de Theo. Nessa hora, ele perde a razão e quebra a cadeira. O rapaz foge de casa. E Theo parte em uma jornada em busca do filho. Enquanto se preparava para a cena em que rouba um celular para tentar ligar para o filho, Wagner respondeu às seguintes perguntas:

Você disse que queria assistir a um trecho já filmado de A Cadeira do Pai. Costuma se assistir?
Em geral, não. Mas este filme é peculiar. Até um certo ponto, trata de família, da separação dos pais, da relação de Theo com o filho. Depois que o garoto some, vira um road movie. Quando mudou o tom, quis ver para saber como estava indo.

Qual é o primeiro tom?
O de um cara que está acostumado a controlar tudo. Mas o buraco do Theo é não ter um pai. E tudo que ele criou para ter estabilidade emocional rui quando a mulher pede o divórcio e o filho some. Ele, que nunca prestou muita atenção no garoto, passa a conhecê-lo melhor ao longo da jornada. Não vemos o menino, só seus rastros. O menino vai encontrando seu caminho. E Theo descobre que o filho foi encontrar o avô. Ele se transforma ao longo da viagem, das porradas que toma.

Fazer um papel assim tem relação com a sua maturidade?
Tem. Há coisas que ficam para trás a fim de poder andar para frente. De certa forma, deixo a figura do Capitão Nascimento e me torno um pai. Aliás, já era pai em Tropa. Aos 20 e poucos anos, interpretei um personagem que era pai, no Caminhando nas Nuvens, do Vicente Amorim. Mas hoje sou pai de fato. Sei o que o Theo passa. Esta viagem o draga de tal forma que ele nunca mais será o mesmo. E ainda encontrei na Mariana Lima uma atriz que compreende o tema. Ela é mãe, tem dois filhos. Há um entendimento mútuo da vida de cada um. É menos um exercício de imaginação porque vivemos isso. A gente não deixa de ser maluco porque virou pai. Só passa a ter uma criança para cuidar.

É um filme adulto?
A gente brinca que falar assim parece que é filme pornô. É adulto por tratar de "emoções adultas." Há um nível de relação entre os personagens, principalmente o Theo e a Branca (Mariana Lima), que têm uma profundidade imensa. Geralmente, o roteiro nos dá algo, cavucamos e achamos coisas insuspeitadas ali. Neste caso, o roteiro já vem embasado. Luciano (Moura) e Elena (Soarez), os roteiristas, são um casal. Têm muita propriedade para falar de relacionamento. É um filme muito bonito.

Você vive um momento ótimo.
Tenho escolhido o que quero fazer. Não só porque há demanda do nosso cinema. Há muita coisa diferente sendo feita. Graças à publicidade, mantenho minha vida. E, por ter feito filmes de sucesso, posso escolher meus papeis.

E quer ser produtor também.
Tenho muito orgulho de ter feito o Tropa 2 por sua qualidade e pela peça nova que o Zé Padilha botou no tabuleiro do cinema brasileiro, de ser "autodistribuído", que é uma solução possível para filmes grandes. O modelo dos grandes estúdios é injusto para o produtor. No Brasil, produtor capta o dinheiro todo, já as majors, graças à lei brasileira, conseguem via isenção fiscal. O fato do Tropa ter colocado esta peça no jogo força também uma nova forma do mercado se acomodar. Sei que o Padilha não vai parar por aí. Não só como diretor, mas como produtor. O Zé não pensa só para ele - quer juntar a O2, a Conspiração, quer mudar o paradigma da indústria cinematográfica nacional. É uma vontade legítima e muito bonita.

Você também vai produzir Serra Pelada, do Heitor Dhalia?
Sim. Adorei participar do Tropa 2. E agora vou produzir com Heitor e Tatiana Quintella. Nos EUA, por exemplo, os atores também têm suas produtoras, o que pode acontecer aqui também.

Não era sua pretensão, mas você abriu esta nova seara.
Minha referência de ator de vanguarda no cinema brasileiro sempre foi o Selton Mello. Ele buscou caminhos novos. Observo o que o Selton está fazendo e ele sempre está à frente. Foi produtor do Cheiro do Ralo (com Heitor Dhalia). Vive também da publicidade e não tem contrato com a Globo, que é o tradicional para um ator ter uma vida confortável. Ele sempre foi um farol para minha geração.

E tem vontade de dirigir?
Sim. Há um projeto com o Rodrigo Teixeira, que comprou os direitos de um livro e quer que eu dirija, mas preciso de tempo.

Você não se limita a só atuar.
Não só quero ser produtor, diretor, mas sei o que cada um está fazendo. Se me perguntar, sei dizer o que cada pessoa deste set faz. Certamente, não serei diretor de carreira, mas como já fiz muito cinema, pergunto: por que não? Acho que vou fazer direitinho.

Há pouco, você comentou que só faria um filme em Hollywood se o papel tivesse a ver com sua trajetória de latino-americano. E agora estrela Elysium.
Porque tem a ver. Não posso falar muito sobre o filme, mas adianto que serei um vilão, que se passará no futuro e que, claro, vou atuar em inglês, mas meu sotaque vai se manter e tem a ver com a trama. É uma ficção científica e, ao mesmo tempo, muito político. Entendo por que Neill (Blomkamp) gosta de Tropa: seu filme anterior, District 9, é uma metáfora da exclusão social e do apartheid na África do Sul. Elysium é assim também. Será um blockbuster, mas terá algo a dizer.

Está ansioso? Com medo?
Estou. Qualquer filme dá medo. Mas este, meu primeiro no exterior, em outra língua, dá mais medo. O Javier Bardem disse uma vez: "Quando atuo em inglês, há um escritório na minha cabeça, tem gente passando fax, telefonando, trabalhando para que aquilo funcione direito. Quando atuo em espanhol, o escritório está vazio". Há a barreira da língua, mas gosto de vencer desafios. Se fosse para neutralizar meu sotaque, seria impossível. Já é difícil atuar em outra língua. Imagina tirar totalmente o sotaque. Nunca morei fora do Brasil. Meu inglês é brasileiro. Não tenho nenhuma vontade de me mudar para Hollywood e ser mais um ator latino lá.

Quando começa a filmar?
Em julho, no Canadá e no México. Talvez a distância e a falta que vou sentir dos meus filhos e da minha mulher será a pior coisa. Mas é bom sair da zona de conforto. Estou contente. A tendência é que o cinema mundial, e o brasileiro, cresçam cada vez mais. Temos de parar com a caretice de achar que nosso mercado é ruim e fazer todo tipo de filme.



Fonte: Estadão