sábado, 2 de outubro de 2010

O mundo real do Coronel Nascimento

As histórias verdadeiras de como as milícias dominaram os morros do Rio de Janeiro e as estratégias para combatê-las são o tema central do aguardado “Tropa de elite 2”



O fenômeno Tropa de elite está de volta aos cinemas e às livrarias. Só não está de volta às bancas de camelôs, onde o DVD pirata do filme estreou há três anos, antes do lançamento oficial do filme. Para impedir que a pirataria afaste parte dos potenciais espectadores da continuação do longa-metragem, sua produção tentou blindá-lo ao máximo. Com isso, o retorno do Capitão Nascimento às telas em Tropa de elite 2, na sexta-feira, mais parece uma operação policial cercada de sigilo. No mesmo dia, o livro Elite da tropa 2 (editora Nova Fronteira, 304 páginas, R$ 39,50) chega às prateleiras com a disposição de repetir o êxito da obra que o precedeu – até a inversão das palavras “tropa” e “elite” é a mesma do original. Desta vez, livro e filme miram as milícias, os grupos criminosos formados por policiais e políticos corruptos que dominaram as favelas cariocas ao tomar à força o controle que antes pertencia aos traficantes.

Embora sejam apresentados como obras de ficção, tanto o livro quanto o filme se inspiram em pessoas e histórias da vida real. Caminham lado a lado ao denunciar as engrenagens de uma indústria da violência. “A milícia coloca o policial como protagonista do crime. É o maior problema da segurança no Rio de Janeiro, hoje”, diz Luiz Eduardo Soares, um dos quatro autores do livro.

O cineasta José Padilha já tentou explicar a violência urbana de várias formas. No documentário Ônibus 174 (de 2002), ele adotou a ótica do miserável que se transforma em bandido. Depois, em Tropa de elite, voltou ao tema pelo ângulo do policial honesto. Agora, avança para a política. Dissecando os interesses que determinam as estratégias de segurança pública, Padilha tenta mostrar como as milícias se formaram e conquistaram poder. Ex-estudante de física, o diretor costuma dizer que faz cinema como quem faz ciência: pega um determinado fenômeno da natureza e tenta reproduzi-lo para explicar suas relações de causalidade.

“Por que os números da violência urbana aqui são maiores do que os do resto do mundo?”, diz Padilha. “A resposta da esquerda tem sido sempre a questão social: onde há miséria, há violência. Já para a direita, é uma questão de falta de repressão. Mas os fatos refutam esses dois lados como motivos isolados. Para mim, é na administração pública que está a principal explicação. O Estado é mais parte do problema do que da solução”, afirma. Se Tropa de elite apresentou ao grande público as entranhas da corrupção policial, sua sequência mostra, com o mesmo didatismo cinematográfico, o alinhamento de policiais e políticos corruptos em organizações criminosas.

As primeiras cenas do filme mostram uma grande operação do Batalhão de Operações Policiais Especiais, o Bope, contra traficantes no Morro Santa Marta, no Rio de Janeiro. Na trama, essa elite da polícia no Estado consegue livrar boa parte dos morros do tráfico de drogas – até então o grande inimigo. Depois de transformar o Bope em uma máquina de guerra, com helicópteros e blindados, seu comandante, o Capitão Nascimento, é alçado ao posto de subsecretário de Inteligência do Estado. Há, então, uma passagem de tempo no filme. Já de cabelos grisalhos e ocupando um cargo ligado ao comando da segurança e à política, Nascimento conhecerá seus novos inimigos. Vencida a batalha contra os traficantes, o protagonista terá de enfrentar o sistema. “O espectador vai descobrindo o jogo político junto com Nascimento”, diz o ator Wagner Moura, que vive o personagem. “Ele, um servidor público dedicado a uma causa durante toda a vida, se vê como peça de um tabuleiro de interesses nada corretos.”

O livro Elite da tropa 2 também explica como as milícias agem. Em relação à obra de 2007, mudaram os bandidos (antes eram os traficantes) e também os s “mocinhos”. Agora eles são da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco). Escrita a oito mãos, pelo antropólogo Luiz Eduardo Soares, pelo delegado da Draco Cláudio Ferraz, pelo policial militar André Batista e pelo ex-capitão do Bope Rodrigo Pimentel (principal inspiração do Capitão Nascimento), a história é narrada por um inspetor da Polícia Civil fictício, personagem que é a mistura de vários policiais da Draco. A narrativa alterna relatos chocantes da violência dos milicianos e análises aprofundadas das raízes do crime no Rio. Na avaliação dos autores, a formação das milícias nasce da cultura do segundo emprego do policial. Embora seja ilegal, o “bico” é tolerado pelo Estado. Ao permitir a prática, o governo ameniza as pressões por aumentos salariais, mesmo pagando abaixo da média nacional. “É uma espécie de ‘gato’ orçamentário”, diz Soares.

O “bico” inocente do passado se transformou, para boa parte dos policiais, na participação em milícias organizadas – que costumam reunir também muitos bombeiros. Nessa atividade paralela, eles controlam grupos paramilitares e exploram financeiramente os moradores das comunidades que controlam. Toda grande organização tem um braço político. Com a influência sobre as regiões, elegem deputados e vereadores, reunindo poder suficiente para interferir nas esferas de comando das polícias Civil e Militar.

As milícias começaram a se formar na década de 70, quando eram conhecidas como “polícia mineira”: grupos de policiais e bombeiros que eram contratados por pequenos comerciantes, especialmente da Baixada Fluminense, para punir bandidos que agiam na região. Dependendo da gravidade, o criminoso poderia ser surrado, expulso ou morto. Os justiceiros eram contratados por tarefa. Policiais voluntariosos também defendiam a vizinhança onde moravam e eram agraciados com presentes dos comerciantes. As milícias evoluíram a partir desse costume. Em troca de uma taxa mensal paga por moradores e comerciantes, “garantem a segurança”.

Essa proteção, hoje, é apenas uma das fontes de renda desses grupos, que muitas vezes assumem o tráfico de drogas após expulsar os antigos donos das bocas de fumo. Organizados, os milicianos passaram a controlar outros negócios, da entrega de botijões de gás à instalação de TV a cabo clandestina. Na semana passada, descobriu-se que a milícia de Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio, uma das mais antigas, virou uma agência de matadores. Comete homicídios por encomenda. A região aparece no filme Tropa de elite 2, disfarçada com o nome de Rio das Rochas. “Muita gente tinha ilusão de que a milícia era melhor do que o tráfico. Mas compará-los já é um raciocínio equivocado. A milícia empresaria o tráfico. Toma conta de tudo”, afirma Cláudio Ferraz, da Draco. “Se a polícia hoje parasse de funcionar, o crime cairia muito, porque os bandidos roubariam só para eles, sem precisar pagar a parte dos policiais milicianos”, diz o delegado. Um bom exemplo de negócio lucrativo das milícias é a venda de botijões de gás. O livro Elite da tropa 2 calcula que ele renda aos policiais corruptos R$ 1,26 milhão por mês. Com os lucros crescentes, a milícia atrai mais integrantes, amplia seus arsenais e elege novos parlamentares. O relatório final da CPI das Milícias da Assembleia do Rio, encerrada em 2008, indiciou 226 pessoas. E comprovou que pelo menos dois vereadores e dois deputados estaduais têm ligação com os milicianos (leia o quadro abaixo) .


Além de controlar o comércio e os serviços, as milícias também promovem ocupações de conjuntos habitacionais. Em Elite da tropa 2, o condomínio Deus é Fiel, com 350 apartamentos, é invadido com o apoio dos milicianos na fase final da s construção. Cada unidade é “vendida” por R$ 5 mil. A operação rende R$ 1,8 milhão. A situação descrita no livro aconteceu de verdade no condomínio Nova Anchieta, na Zona Norte do Rio. Em maio deste ano, a Draco prendeu nove milicianos no condomínio. Cada morador pagava R$ 100 mensais pela segurança, o que rendia ao grupo armado R$ 35 mil.

A violência é uma das marcas da ação das milícias nas favelas do Rio. Elas cometiam barbaridades praticamente sem ser incomodadas – até que cometeram um erro. Em maio de 2008, sete milicianos sequestraram uma equipe do jornal carioca O Dia, que estava infiltrada na Favela do Batan, na Zona Oeste. Descobertos, a repórter, o fotógrafo, o motorista e um morador foram torturados. O episódio (relatado no livro, em forma de ficção) revelou o submundo das milícias para o grande público e acabou agilizando a aprovação da CPI das Milícias, que estava arquivada. Foi o primeiro passo para que essas organizações criminosas ganhassem maior visibilidade – o que exigiu uma estratégia da polícia. Tanto o livro quanto o filme exploram o lado violento das milícias, apresentando cenas de humilhação, tortura e assassinatos. No longa-metragem, é o Major Rocha, o Russo, o grande vilão que “esculacha” inimigos e moradores das comunidades (leia o quadro a seguir) . As cenas carregam nas tintas. Numa delas, um miliciano brinca com os restos de um corpo incinerado. A classificação indicativa do filme é 16 anos.


Para os autores do livro e o diretor do filme, a “máfia” das milícias, enraizada na polícia e na administração pública, é uma ameaça às Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), consideradas a maior ação do governo do Estado na área de segurança nas últimas décadas. “A UPP resolve metade do problema. Tira o tráfico armado da comunidade. Mas quem fica é a polícia. Se a corporação não for saneada, a comunidade pode acabar nas mãos de milicianos”, diz Padilha. Cláudio Ferraz, da Draco, diz que os policiais iniciantes e honestos que foram colocados nas UPPs com o tempo sofrerão pressão dessa máfia. “O cesto está podre. Se você colocar lá dentro uma maçã sadia, a tendência é ela apodrecer também”, afirma. Mesmo que Tropa de elite 2 não repita o sucesso de seu antecessor, o problema que ele escancara poderá se tornar alvo de reflexão, para o bem do Rio de Janeiro.

Fonte: Revista Época

1 COMENTE! :

Anna Flávia Schmitt Wyse Baranski disse...

Uma homenagem para o Rodrigo Pimentel:
http://adonadosenadofederal.blogspot.com/2010/10/rodrigo-pimentel.html

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