sexta-feira, 17 de julho de 2009

“Nosso Hamlet é mais despojado”, diz Wagner Moura sobre peça




Wagner Moura, 33 anos, interpreta Hamlet no clássico homônimo de Willian Shakespeare com apresentações nesse fim de semana no Teatro Positivo, em Curitiba, Paraná. Dirigida por Aderbal Freire-Filho, a peça conta a história do príncipe dinamarquês encarregado de vingar a morte do pai e recuperar a coroa.

A montagem conta com dez atores, entre eles Caio Junqueira e Carla Ribas, premiada protagonista do longa A Casa de Alice. A tradução que Aderbal fez da peça, com a contribuição de Bárbara Harrington e do ator, é mais coloquial. Moura encarna o príncipe da Dinamarca mais agitado, mais brasileiro.

"Não significa que estejamos tornando o texto mais simples", afirma ele

"Não há na nossa tradução nenhum traço de coloquialismo. Aderbal foi um mestre em passar o jogo de palavras do inglês shakespeariano para a nossa língua, sem tanto prejuízo. A nossa peça tem texto direto. É despojado sem abrir mão da poesia", completou.

Para o ator, Hamlet é uma paixão antiga.

"É um grande personagem por quem sou apaixonado desde os 15 anos. Apesar da tragédia que é a peça, tudo que ele diz é muito espirituoso e irônico. Ele é um muito mais inteligente e bem-humorado do que eu."

Confira a entrevista com Wagner Moura:

# Sempre se falou em Shakespeare como um autor para intelectuais...

Muito por causa dos diálogos rebuscados. Ele foi um autor do povo, um gênio popular. E a nossa peça tem texto direto. É despojado sem abrir mão da poesia. Já acho até mais interessante montar Hamlet aqui do que nos países falantes da língua inglesa, já que não podem traduzi-lo para as pessoas.

# A tradução é mais coloquial?

A gênese da montagem era a comunicação com o público. Hamlet foi um grande sucesso em 1600. Não havia por que não sê-lo hoje também. Isso não significa que estejamos tornando o texto "mais simples". Não há na nossa tradução nenhum traço de coloquialismo. O que acontece é que a maioria das traduções, muitas com ambições literárias, pagam tributo às portuguesas do século XIX, que pegavam o inglês elisabetano e traduziam para o português arcaico. Aderbal foi um mestre em passar o jogo de palavras do inglês shakespeariano para a nossa língua, sem tanto prejuízo.

# Como foi o processo de criação? Como define o Hamlet de Wagner Moura?

A maior preparação é o ensaio, a ação. Chegar todo dia naquele horário e ir descobrindo a peça e o personagem junto ao diretor e colegas. Cada dia entendo mais o termo work in progress, que se aplica tão bem a qualquer trabalho em teatro. A vida é um work in progress. Duvido muito do crítico que vem com teorias acerca da psicologia de Hamlet (embora os psicólogos o amem). Stanislavski não se aplica a Shakespeare. Adoro pensar que o bardo antecipou Brecht. Hamlet não faria assim, Hamlet não agiria assado, Hamlet é deprê, Hamlet não pode rir, qualquer coisa que se diga é uma simplificação boba dos "inteligentes" que querem dizer que conhecem bem Hamlet. Eu tenho convivido com ele e adorado conhecê-lo aos poucos, me surpreendendo a cada noite, nessa onda que Tonico Pereira batizou de "solidão de protagonista". Conhecê-lo e surpreender-me com ele é conhecer-me e surpreender-me também comigo.

# Você disse que produziu Hamlet por "absoluta necessidade"...

Não por ser um clássico. Mas certamente a emoção do teatro é diferente de qualquer outra coisa. Escolhi Hamlet porque nele está o que há de melhor em Shakespeare. É um grande personagem por quem sou apaixonado desde os 15 anos. E porque sou velho pra Romeu e novo para Lear. Hamlet é um personagem muito engraçado. Apesar da tragédia que é a peça, tudo que ele diz é muito espirituoso e irônico. Ele é um muito mais inteligente e bem-humorado do que eu.

# Qual é seu trecho preferido de Hamlet?

O monólogo de Hécuba. É uma fala que exorta o poder dos atores e do teatro, dita por atores, num teatro, me emociona muito. O teatro como revelador da verdade. É com o teatro que Hamlet agarra a consciência de Claudios. Que coisa linda! Isso me emociona muito.

Serviço: "Hamlet"

Onde: Teatro Positivo - Grande Auditório - R. Prof. Pedro Viriato Parigot de Souza, 5300 - Campo Comprido, Curitiba, tel. 0/xx/41/ 3317-3107

Quando: Dia 18 de julho, 20h. Dia 19 de julho, 19h

Quanto: R$ 84. Meia-entrada para idosos a partir dos 60, estudantes, professores e doadores de sangue com documento comprobatório

Fonte: Jornal de Maringá