domingo, 28 de junho de 2009

Wagner Moura traz a essência de Hamlet no despojamento



A estreia do Hamlet trazido ao Recife pelo ator baiano Wagner Moura encheu as quase 2 mil poltronas do Teatro da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Desde a última quinta-feira (25), os ingressos para os dois dias da apresentação estavam esgotados. Na montagem do diretor Aderbal Freire-Filho, a clássica tragédia de Shakeaspeare se transforma em farsa, que não deixa a desejar se comparada às melhores comedias shakespeareanas como "A Megera Domada" e "O Sonho de uma Noite de Verão".

A morte do Rei da Dinamarca é o ponto de fuga da trama. Hamlet (Wagner Moura), único filho do monarca, sofre da triste perda, enquanto a Rainha Gertrudes (Carla Ribas), recém viúva, casa-se com Cláudio (Tonico Pereira), o irmão do falecido Rei, tio de Hamlet e herdeiro do trono.

Inconformado com a rapidez com que o luto foi superado pelos familiares e atordoado por visões do fantasma do pai, Hamlet começa a suspeitar de que existe uma conspiração terrível por trás dos acontecimentos.

A farsa se descortina à medida que o protagonista experimenta a loucura, quase esquizofrênica, da suspeita da conspiração e do desejo de vingar a morte do pai. O público fica, então, com o que há de mais genuíno no personagem: Hamlet busca a verdade, a retidão e a honestidade e já não sabe mais em quem acreditar.

A intenção do encenador foi mesmo buscar a simplicidade e o despojamento para aproximar o texto escrito no ano de 1599 aos dias atuais. Metáfora pertinente para o nosso "Reino da Dinamarca", abaixo da linha do Equador, com novos escândalos políticos a todo momento.

Todo o espetáculo é pensado para aproximar o público das essências do texto e do teatro em si. A cena começa a cortinas abertas. O próprio Wagner Moura vem cumprimentar o público e dar orientações para uso de máquinas fotográficas e duração do intervalo e, ali mesmo, se transforma no personagem para iniciar a trama.

A cenografia de Fernando Mello da Costa e Rostand Albuquerque, ganhadora do Prêmio Shell, segue a estética despojada. O palco não tem bastidores e traz poucos elementos. Enquanto uma passagem acontece, os atores que não estão em cena assistem ao espetáculo das laterais, à vista do público, como se fossem uma trupe mambembe. Todas essas nuances afastam um pouco a ilusão do naturalismo e trazem, na fala viva dos personagens, a mensagem do dramaturgo britânico.

Através de um telão posicionado no fundo do palco, são projetados, em tempo real, detalhes de algumas cenas. Com esse recurso, mesmo em um teatro de grandes proporções como o da UFPE, por alguns instantes, temos a sensação de proximidade de um teatro de arena.

A iluminação da peça é precisa e bem executada. A luz projetada por Maneco Quinderé compõe as ambiências dos vários locais onde as cenas se passam, seja nos aposentos do Castelo de Elsinor, ou nas paisagens externas. O figurino assinado por Marcelo Pies é neutro, não determina tempo ou lugar dos acontecimentos e busca o equilíbrio entre o épico e o atual. A trilha sonora é o primeiro trabalho do gênero do ex-integrante da banda Los Hermanos, Rodrigo Amarante. Ele é apaixonado por teatro e criou músicas inéditas para a montagem.

O elenco conta ainda com Georgiana Góes (Ofélia), Caio Junqueira (Horácio), Fábio Lago (Laerte), Gillray Coutinho, Cláudio Mendes, Felipe Koury e Marcelo Flores. Depois do intervalo de dez minutos para esticar as pernas nas 3h30 de espetáculo, as interpretações dos coadjuvantes enchem a cena de frescor. Georgiana Góes emociona ao encarnar uma Ofélia desiludida com o amor de Hamlet e desvairada com a tragédia que se abateu sobre a família.

O final da trama de quatro séculos, já tantas vezes encenada e levada para o cinema por atores de renome como Laurence Olivier, Innokenti Smoktunovsky e Mel Gibson, muitos devem conhecer. Mas para não estragar a surpresa do público jovem que talvez se encontre com Shakespeare pela primeira vez, ficamos por aqui com uma das célebres frases de Hamlet: “O resto é silêncio”.

Wagner Moura chegou à cidade na sexta-feira (26), acompanhado da esposa Sandra Delgado e do filho Bem, de dois anos. A temporada aqui tem um gosto especial para a família: neste sábado (27), Wagner Moura completou 33 anos. O público recifense pode saudar o artista aclamado no teatro, cinema e telenovelas com aplausos de parabéns e satisfação ao fim da montagem viva, atual e despojada de um Hamlet que sai do convencional para se aproximar das pessoas.

Fonte: Pe360°graus