quarta-feira, 29 de abril de 2009

Atuações interessantes marcam primeira noite de curtas no Cine PE



Blackout, com Wagner Moura, tem como cenário uma sala da Assembleia Legislativa

A exibição da mostra de curtas do Cine PE 2009 começou com um pequeno atraso, um pouco mais de meia hora, por volta das 19h15. Para iniciar a noite, o primeiro curta digital foi a animação 'A Ilha'. Todo em terceira dimensão (3D), o filme faz uma piada, uma sátira da individualização nas grandes cidades. Levando em consideração a máxima de que "nenhuma pessoa é uma ilha", o diretor Alê Camargo coloca um jovem preso no meio de uma avenida super movimentada, onde é praticamente impossível atravessar. Ele fez do canteiro entre duas vias de uma avenida um espaço isolado. Diferente do Náufrago, de Tom Hanks, o jovem se vê muito perto da sociedade e, ao mesmo tempo, não consegue contato com ninguém. O personagem aprende a viver apenas com uma árvores e animais, até que Deus possa colocar na vida dele um sinal e uma faixa de pedestre. O interessante dessa animação não é apenas a sua qualidade, mas a noção de tempo estabelecida pelo diretor. Com humor e uma pitada de ação, o filme é subdivido em capítulos, mostrando o quanto o jovem se transforma ao passar dos dias sozinho, tornando-se uma figura quase grotesca.

Os fãs de histórias em quadrinhos e de ficção científica com certeza adoraram 'Manual para se Defender de alienígenas, zumbis e ninjas', do diretor André Moraes. Para aqueles que não entendem muito de HQs, o filme valeu pela atuação de Lúcio Mauro Filho. É a história de dois amigos que ganham em um sorteio um kit para destruir inimigos alienígenas implantados no Brasil. Com um roteiro sem muito propósito, o curta quer mais entreter do que propor algo novo. Realmente vale para rir - e para ver também um Lucio Mauro Filho se divertir em uma excelente atuação. "O filme foi feito por amigos, para amigos", explica o diretor do vídeo.

E o que acontece quando um casal de aparência caricata resolve se vingar das atendentes de telemarketing? A resposta está no terceiro curta da noite, 'O Troco'. Se a proposta desse era fazer a platéia do Cine PE se sentir vingada pela demora nos atendimentos telefônicos, ele conseguiu. O diretor André Rolim aproximou tanto a roteiro da realidade, que foi o filme mais aplaudido da noite. E a estética de 'O Troco' é simples: dois cenários, três bons atores, clima retrô anos 80 e bom humor.

Em seguida, houve a apresentação do documentário realizado no Recife, mas editado em São Paulo, 'Menino Aranha', de Mariana Lacerda. Vertiginoso, o curta conta a história de Tiago João da Silva, que praticava furtos escalando prédios, assassinado em 2005. A película transmite uma sensação de enjoo devido a uma nova estética, proposta em utilizar muitos takes em plano-sequência, de prédios altos, principalmente no bairro de Boa Viagem, Zona Sul do Recife. A sensacão é de que vamos cair o tempo inteiro. Ao fundo, escutamos entrevistas em off, como apenas uma narração da vida do Menino Aranha, sem identificação de nenhuma voz. Nova proposta que valeu a pena, pois dá um tom de fábula a uma vida tão dura quanto a de Tiago, mais uma criança sem infância.

O quinto curta da noite foi 'Ana Beatriz', da diretora Clarissa Cardoso. O filme mais fraco da abertura do Festival é uma montagem de fotografias, stop-motion, com uma narração. Influência clara de 'Vinil Verde', de Kleber Mendonça Filho, mas sem a mesma qualidade. "É uma história de amor, de um amor que existia mesmo antes do casal se conhecer", aponta Clarissa Cardoso. E termina por aí, sem maiores novidades.

O último do primeiro dia d Cine PE foi o melhor. 'Blackout', de Daniel Rezende, trouxe surpresa ao público. O curta é bem dirigido, montado e com atores de primeiríssima linha, como Wagner Moura e Augusto Madeira. Eles estão brilhantes nos personagens de um assessor parlamentar corrupto e um suplente, que resolvem fumar maconha nas salas em reforma da Assembleia Legislativa. Em um tom meio escuro, intimista, o filme parece ser todo em plano-sequência, mas descobrimos cortes a partir do momento em que damos conta de mais um personagem, que está a todo tempo no local. Para aqueles que não viram, vale a pena descobrir mais sobre o filme.

Fonte: JC Online