sábado, 3 de janeiro de 2009

Filme sobre irmã Dorothy pode concorrer ao Oscar 2009



A Academia de Hollywood incluiu “Mataram a Irmã Dorothy’’, do documentarista norte-americano Daniel Junge entre os 15 pré-selecionados ao Oscar de melhor documentário de 2009. Os cinco indicados serão anunciados no próximo dia 22.

Apartir de 400horas de gravação, o documentário aborda as forças envolvidas na morte da missionária conservacionista Dorothy Mae Stang, de Ohio (EUA), assassinada a tiros aos 73 anos, em fevereiro de 2005, em Anapu (oeste do Pará).

“Se eu tivesse escrito a trama, ninguém acreditaria’’, disse Junge à reportagem, por telefone, de Denver. “Foi uma tremenda sorte encontrar personagens tão fantásticos em todos os lados da história. Mas, se você for ao Pará e passar um tempo em Belém, vai encontrar pessoas como aquelas, quase teatrais’’.

Além de Dorothy, que surge emimagens de arquivo, e de seu irmão, David, que foi ao Pará seguir as investigações, Junge destaca os pistoleiros, os acusados de serem mandantes do crime -Regivaldo Pereira Galvão, o Taradão, e Vitalmiro Bastos de Moura (Bida)- e os advogados de defesa do último.

O filme acompanha as condenações iniciais dos pistoleiros, de um intermediário e de Bida. Mas a história continua a sofrer reviravoltas, após as gravações. Bida foi inocentado em um segundo julgamento e está de volta ao Pará. Taradão, que havia ficado preso por mais de um ano e depois fora solto, voltou a ser preso no último dia 26, acusado de grilagem. Ele estaria negociando o pedaço de terra que levou à morte de Dorothy - o lote 55, disputado por pecuaristas

e assentados do Programa de Desenvolvimento Sustentável (PDS), que a missionária liderava.

Junge simplifica a história, mas mostra as complexidades da disputa. O filme deixa claro que o PDS era odiado por boa parte da população de Anapu. Com críticas à ignorância dos próprios clientes, tramoias e gritos de “Vamos à guerra!’’, os advogados de defesa são os protagonistas das cenas mais impressionantes do filme.

Numa cena, a mãe de um dos pistoleiros discute com a equipe por telefone. “Ela diz que o filho fica na prisão, mas leva todos os responsáveis junto’’, diz um dos advogados. “Olha a mentalidade desse povo!’’

Junge diz que não sabe explicar o porquê da abertura surpreendente dos advogados à sua equipe, composta em boa parte por brasileiros. “Acho que eles operam em um ambiente de tanta impunidade que pensam que não é possível atingilos. Têm essa bravata e gostam de ser vistos assim. E são muito bons no que fazem’’.

Mesmo preocupado com a imparcialidade, o diretor não tentou evitar na edição que os personagens se mostrassem em tons tão carregados. “É um melodrama, mas aconteceu na nossa frente’’, conta. “E a gente também curte essas reviravoltas dramáticas do caso’’.

Ele admite, contudo, um desconforto. “Tenho medo que as pessoas se fixem na ideia de uma “freira doce” e dos “homens maus” que a mataram e percam a dimensão das ideias mais importantes. A história não é sobre a “mulher boa contra os homens maus’, e sim sobre falhas sistêmicas, fracassos e a culpa de toda uma sociedade -incluindo as pessoas na Amazônia, o governo brasileiro, e também os norte-americanos que fazem negócios por lá’’.

“Mataram a Irmã Dorothy’’ também foi pré-selecionado para indicação ao Oscar por melhor canção original por “Forever’’, de Bebel Gilberto.A narração é de Martin Sheen (em inglês) e Wagner Moura (em português).

Após vencer o South by Southwest Film Festival (Austin, Texas), o filme foi comprado pela HBO, responsável pela distribuição nos EUA. No Brasil, a MovieMobz planeja lançá-lo em 13 de fevereiro.

Fonte: Diário do Pará