terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Wagner Moura faz o Hamlet da sua geração



Wagner Moura lançou-se na empreitada iniciática de "fazer seu Hamlet" com a intenção que fosse apenas mais uma montagem. Falhou: é o Hamlet emblemático da sua geração.

Espelho inesgotável, mas que reflete apenas o que se põe na sua frente, a obra-prima de Shakespeare, síntese do teatro, já teve o rosto compenetrado de Sérgio Cardoso, que assumia o papel de construir o moderno teatro brasileiro; e, em oposição, um Marcelo Drummond se estraçalhando como um camicase nos caóticos anos 90, na montagem do Oficina.

Moura, Hamlet do milênio, tem pela frente um país que se reergue praticamente de ruínas, mas tendo aprendido importantes lições. Vestindo o personagem como uma armadura, consciente da batalha, Moura precisa primeiro exorcizar o fantasma da grandiloqüência com o humor adolescente que tanto o marcou.

Não é pela melancolia, mas pelo deboche exasperado que ele rejeita a podridão de seu reino e ganha a platéia nos trocadilhos e na marcação frenética. Mas há método nessa loucura: quando é preciso, triunfa pela simplicidade, e inesquecíveis monólogos marcam sua entrada definitiva no mundo adulto.

Com uma preciosa tradução dividida entre ele, Bárbara Harrington e o diretor Aderbal Freire-Filho, se faz compreender sem perder o frescor nem a beleza sonora. O "ser ou não ser" tem seu peso devido, ou seja, um devaneio entre parênteses, quando o mais importante está em suas considerações sobre o próprio teatro.

Para isso, é preciso um diretor que ponha seu currículo inteiro em cena, como faz Freire-Filho. Não pode ser menos, com "Hamlet": tudo o que o diretor já fez soa como uma preparação para o que se vê aqui. No cenário, retoma com Fernando Mello da Costa a experiência do "Púcaro Búlgaro": coxias abertas, abarrotadas, com atores atentos, em contraste com o palco nu. Há o vídeo em cena, que esfriava "O Que Diz Molero", e que agora acompanha passo a passo o texto, desdobrando suas leituras com grande impacto visual.

Rei coletivo

Em uma metalinguagem, o pai de Hamlet, rei destronado por um canastrão, é uma entidade coletiva, feita pelo elenco de apoio que se reveza na armadura: a verdadeira majestade é da trupe, não do indivíduo. Mas cada peça desse quebra-cabeças é precisamente ajustada.

Tonico Pereira, com sua bonomia que remeteria mais a Polônio, faz um Cláudio extremamente simpático, e por isso perigoso. Humano em sua fraqueza, Pereira atinge a maturidade como ator encontrando a dor no centro do cômico.

Georgiana Góes é uma adolescente que se estraçalha na dor, por sambas e frevos que parecem improvisados na hora, façanha de Rodrigo Amarante.

Fábio Lago faz um Laertes transfigurado pelo ódio, que recobra a integridade no final. Já Gillray Coutinho aproveita tudo o que Polônio pode lhe oferecer, na sua técnica espantosa. Marcelo Flores e Cláudio Mendes, clowns meticulosos, sabem honrar seus solos, enquanto coveiros e atores. Carla Ribas tem grande dignidade como Gertrudes, mas fica um pouco deslocada quando o desvario triunfa. Caio Junqueira (Horácio) e Felipe Kouri completam um elenco no qual ninguém faz sombra a ninguém, e é a história que prevalece.

Esse "Hamlet" é indispensável e antológico por sua essencialidade. Não busca ser original, mas eficiente, e faz um apelo contagiante pela própria grandeza do teatro. Na ratoeira de "Hamlet", o que fica preso é o coração da platéia, com os olhos abertos para se ver refletido nesse espelho infinito.

Fonte: Folha Online