domingo, 14 de dezembro de 2008

Não é só ir ao teatro. Tem de ser na 1ª fila



Alguns paulistanos fazem de tudo para ficar quase grudados no palco

Há um grupo de paulistanos que faz qualquer negócio pelo prazer de assistir a um espetáculo na primeira fila de um teatro. E isso inclui descobrir esquemas diferenciados de venda de entradas, jogar um charme para o bilheteiro, ficar numa fila de espera por semanas ou, em última hipótese, ligar todos os dias até conseguir o lugar desejado. Há também quem apele para aquela frase arrogante e típica: “Você sabe com quem está falando?”

“Quem vai ao teatro com freqüência sabe que os melhores lugares estão na terceira e na quarta fileiras”, afirma Claudia Hamra, diretora do teatro da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). Então por que o desejo da primeira fila? “Isso acontece principalmente em espetáculos com atores globais, em que os fãs querem ficar bem perto de seus ídolos.” É isso mesmo, a platéia quer, na verdade, ver de perto o bonitão da vez.

Depois de se firmar como galã de novela e estourar nos cinema com o filme Tropa de Elite, Wagner Moura virou um desses atores, capazes de levar uma legião de mulheres, de todas as idades, ao teatro para assistir a Hamlet, de William Shakespeare, dirigida por Aderbal Freire-Filho, e ainda brigar na bilheteria para ficar bem na frente.

A psicóloga Camila Mazetto, de 29 anos, por exemplo, demorou três semanas para conseguir um ingresso na chamada fila do gargarejo. “Na primeira vez, assisti da quarta fila, mas achei muito longe.” Então ela voltou e bateu um papinho com o funcionário da bilheteria, que deu a dica: às quartas-feiras, quando abrem as vendas para as duas semanas seguintes, é possível conseguir ingresso na primeira fila. Ela esperou mais uma semana e conseguiu. “A visão da primeira fila é outra coisa. Parece que você está dentro da peça. Não há intermediação entre você e o ator.”

Na saída do espetáculo, Camila ainda deu sorte e encontrou com Wagner na rua. “Não resisti. Pedi autógrafo. Pena que não tinha levado máquina fotográfica”, conta. “Tudo bem, vou pela terceira vez. E levo a máquina.” Mais discreta, Bruna Thedy, de 25 anos, também preferiu a primeira fila de Hamlet, mas tinha outra desculpa: “Sou atriz e queria sentir melhor a energia de Wagner.”

Sentada duas cadeiras à sua direita, Paula Souza, de 32 anos, coordenadora de qualidade, confessa: “Daqui dá para ver que ele é bonito mesmo. Na TV, nem parece tanto.” Paula diz não ter perdido nenhum detalhe. “Vi todas as expressões, até a lágrima escorrendo no rosto. A única coisa chata, e que a gente deixa para lá, é que ele cospe muito, até baba em algumas cenas, mas depois volta a ficar lindo.”

A produção fica super atenta à primeira fila - que é a mais participativa, digamos. “Teve uma moça que, no meio da peça, levantou uma placa, com os dizeres ‘Eu sou sua piscininha. Jogue-se aqui’”, conta Claudia. Nessa ocasião, Wagner não resistiu e parou para ler o cartaz. Perdeu a concentração e quebrou o ritmo da peça.

Paparazzi

Outro problema são as fotógrafas amadoras. Antes de começar a peça, Wagner pede à platéia que não tire foto durante o espetáculo, mas nem sempre o apelo surte efeito. Então a produção providenciou uma caneta-laser. “Sacou a máquina da bolsa, a gente mira com a luz vermelha”, diz Sergio Martins, diretor de produção da peça. “Sempre intimida. E no final do espetáculo vamos lá e apagamos imagens feitas.”

O sonho de estar no palco, de ser ator por um dia, também leva alguns à primeira fila. “Fico bem na frente para ter chance de ser convidado a participar das cenas interativas com a platéia”, diz o músico Luiz Felipe Corrêa, de 28 anos, que já assistiu três vezes a Os Bandidos, peça de Schiller adaptada por José Celso Martinez Corrêa, com seis horas de duração, no Teatro Oficina. Da última vez, foi chamado para fazer uma participação fixa, a do apresentador Silvio Santos. Ele ganhou até uma máscara com as feições do personagem. “No espetáculo virei uma espécie de Silvio Santos bailarino. É muito divertido se jogar assim em cena.” Luiz não perde uma peça que aconteça no Oficina. Virou até amigo de Zé Celso.

Beijinhos

“Na primeira fila escuto melhor”, justifica Elza Yuko, que esperou um mês pelo ingresso de A Alma Boa de Setsuan, no Teatro Renaissance, nos Jardins. Na bilheteria, deixou escapar propositalmente que era a dona do Kyomix, restaurante japonês muito freqüentado por atores. A esperança era conseguir com mais facilidade o tal ingresso. Não adiantou muito. “Glória Menezes e Arlindo Lopes são alguns dos atores que vão ao restaurante”, diz ela.

“Quando estou na frente, às vezes sou reconhecida pelo ator”, confessa, envaidecida. “Durante um espetáculo, já aconteceu de me mandarem um beijo do palco assim que me viram.” Às vezes, ela também passa por apertos. “Já fizeram troça do meu cabelo num espetáculo.” Mas não deixou de sentar na frente por causa disso. “Meu penteado era meio alto mesmo.”

Fonte: O Estado de S. Paulo