quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Guel Arraes une Wagner Moura e Letícia Sabatella em 'Romance'



Com a Nouvelle Vague na veia, Guel Arraes vai de “Jules et Jim” (1962), de François Truffaut, a “Uma mulher é uma mulher” (1961), de Jean-Luc Godard, para explicar como transformou o mito da paixão imortal de Tristão por Isolda em “Romance”, uma reflexão sobre a arte do querer. É difícil não lembrar do truffautiano “A noite americana” (1973) quando o diretor de “O auto da Compadecida” (2000) fala das referências ao próprio cinema e à arte de atuar que cercam o amor entre dois atores. Na tela, um Tristão chamado Pedro (Wagner Moura) e uma Isolda de nome Ana (Letícia Sabatella) aprendem a conjugar o verbo “amar” na primeira pessoa do plural enquanto interpretam, filmam e gravam, entre projetos pessoais e ciúmes.

— Se eu tivesse que fazer um slogan para “Romance”, eu diria que é um filme feminino que os namorados devem ver para fazer bonito com as moças — brinca Arraes.

"Romance" está previsto para entrar em cartaz no dia 14 de novembro. Embalada ao som de “Nosso estranho amor”, na voz de Caetano Veloso, a produção marca a volta de Arraes à tela grande cinco anos depois do sucesso de “Lisbela e o prisioneiro” (2003), visto por 3.174.643 pagantes. Nesse período, Arraes participou de vários longas como produtor, mas ficou fora da direção.

— Se "Romance" tem algo de "A noite americana", do Truffaut, ela está na discussão sobre a representação, que entra como uma das camadas do filme. Mas não é uma metalinguagem explícita. Ele está no domínio do possível — diz Arraes, que encara “Romance” como seu primeiro filme adulto, após dois longas bem-sucedidos na seara do humor. — Os trabalhos anteriores tinham uma coisa da ingenuidade, que vinha, em parte, da minha paixão de infância pela chanchada. Este é diferente. Ele tem partes engraçadas, mas não é uma comédia. Talvez eu devesse pôr um aviso nele dizendo: “Não precisa rir, não”.

A partir de leituras do livro “História do amor no Ocidente”, de Denis de Rougemont, Arraes dissecou a lenda européia de Tristão e Isolda. Imortalizado em poema de Gottfried von Strassburg, escrito no século XIII, o casal foi revigorado na ópera composta entre 1856 e 59 por Richard Wagner. Agora, Arraes parte dele em busca de um novo padrão de sentimento.

— Passei por grandes casais do cinema, como Domingos Oliveira e Leila Diniz e Godard e Anna Karina, na tentativa de buscar uma alternativa ao amor clássico, como o de Tristão e Isolda. Nesse aspecto, “Romance” me deixa mais relaxado. Os longas que fiz antes dele tinham uma bandeira de produtor, de cinema comercial. Hoje, depois de “Central do Brasil” e “Cidade de Deus” quando o cinema brasileiro provou ser capaz de fazer filmes populares de qualidade, “Romance” vem apenas falar de amor. É um olhar sobre a construção de um amor contemporâneo — diz Arraes.

Aos 54 anos, o cineasta pernambucano, consagrado na TV pela direção de programas de humor de formato experimental como “TV Pirata” e “Comédia da vida privada”, está pronto para iniciar a produção de “O bem amado”, com Marco Nanini no papel de Odorico Paraguaçu. Mas antes, Arraes teve de conferir a recepção de “Romance”, seu filme mais pessoal, em uma Première Brasil marcada por longas que desafiam modelos tradicionais de narrativa.

— O cinema brasileiro tem sido marcado por discussões muito passionais sobre o tipo de filme a ser feito. Mas as pessoas não percebem que projetos como “Romance” só são possíveis porque existem filmes de transgressão, dirigidos por cineastas como Julio Bressane, cuja obra é muito importante para mim — diz Arraes, citando o diretor de “A erva do rato”. — Assim como há poetas para poetas, há cineastas para cineastas. Mallarmé, por exemplo, é um poeta para poetas. Já Carlos Drummond de Andrade consegue ser popular. E todos convivem.

Fonte: O Globo Online
Texto editado por Andressa Santos