sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Wagner Moura está na peça shakesperiana Hamlet!



Confira logo a seguir uma entrevista que Wagner concedeu à 89.1FM. Na entrevista, Wagner fala sobre sua peça "Hamlet", fala sobre o documentário "Além Hamlet" produzido por sua esposa, Sandra Delgado, e fala também sobre o que pretende fazer quando a temporada de "Hamlet" acabar. A entrevista foi realizada na mesma semana em que "Hamlet' estreou no teatro Faap em SP.

89 – Conte pra gente como surgiu a idéia de trazer “Hamlet” novamente ao teatro.

Wagner Moura – “Hamlet” é uma coisa que me acompanhou muito: eu li “Hamlet” quando eu tinha 15 anos, e fiquei muito impressionado, como obra literária, mesmo. Com o tempo, eu comecei a fazer teatro, e aí veio a obra de teatro, que é o princípio de “Hamlet”. “Hamlet” é uma peça de teatro que depois virou uma grande obra da literatura. Então, a vontade de fazer foi de colocar “Hamlet” no lugar que é dele por direito, que é aqui, no palco, no teatro. “Hamlet” foi escrito pra ser “feito”, foi escrito pra boca dos atores. É ótimo ler, mas o fim da peça é este aqui. Então, a nossa idéia de montar partiu deste pressuposto, de que se “Hamlet” era popular em 1600, ele pode ser agora. A gente não acredita no elitismo desta peça. A gente acha que é uma peça que pode conquistar as pessoas, e as pessoas se envolverem com a história deste príncipe, e embarcarem com ele na história deste império.

89 – Vocês mantiveram esta montagem fiel à idéia de Shakespeare ou trouxeram algum elemento mais moderno?

Wagner – Bom, eu terminaria dizendo que é uma peça fiel, embora seja uma peça da nossa época, do nosso tempo. Ninguém vai usar os figurinos elizabetanos, nem nada, mas é fiel no sentido de que, quando Shakespeare escreveu, era uma peça comunicativa e popular, e a gente se mantém fiel a esta idéia. A nossa tradução preserva a poesia da obra de Shakespeare, a gente não facilita, mas também a gente não dificulta. É uma peça bastante comunicativa: não é uma peça pra quem conhece Shakespeare, não é uma peça pra iniciados em Shakespeare. É uma peça pra quem gosta de teatro.

89 – Este é o seu primeiro personagem de Shakespeare?

Wagner – É. É a primeira vez que eu faço Shakespeare, e eu achei que... este é justamente o personagem que eu sempre gostei mais. Eu acho que, em “Hamlet”, está o sumo do que há de melhor em Shakespeare, tanto na peça como no personagem. É... eu estou novo pra fazer Lear e velho pra fazer Romeu!

89 – O Hamlet é considerado um personagem muito difícil de ser feito. Você sentiu esta dificuldade? O que mais pegou pra você?

Wagner – Ele carrega esta mítica de ser o personagem mais difícil do teatro ocidental, e ele é, de fato, um personagem muito complexo. Mas esta complexidade, ao invés de me assustar, me aproxima dele, pela absoluta certeza de que eu não vou dar conta disso! O que eu vou mostrar é um pouco dele. É o pouquinho que eu posso. E isso eu vou fazer com todo o empenho que eu posso. Mas eu fico tranqüilo com isso. O processo, ao contrário de ter sido complicado, truncado, difícil, não: foi um processo fluido, fácil, porque a obra prima que é a peça vai levando a gente. Não precisa fazer esforço, você não bota força, ela vai te levando, basta você dizer aquelas coisas, e a coisa vai acontecendo. E a mágica do teatro vai surgindo.

89 – O que você colocou da sua personalidade no “seu” Hamlet?

Wagner – Tudo! Porque é assim... eu geralmente abordo os personagens com um certo barroquismo, um psicologismo, que não cabe aqui; aqui é um teatro da ação. Então, o que foi, pra mim, o tempo todo, era eu dizendo aquilo. Eu dizia aquelas falas, e era eu mesmo dizendo, com as minhas coisas, as minhas questões, com o entendimento que eu tinha daquela peça, e aquilo foi acontecendo. Foi se materializando um personagem que é uma amálgama do que sou eu e do pouquinho que eu consigo transmitir da grandiosidade que é Hamlet. Porque Hamlet é muito maior que eu: é muito mais inteligente, muito mais bem humorado, muito mais vivo, muito mais ser humano do que eu próprio. Então, o que eu consegui é pegar um pouquinho dele, com as minhas coisas, minha vida, e colocar no palco.

89 – E você também é muito conhecido por se dedicar muito, se entregar muito. Eu queria saber como você se prepara pros seus personagens.

Wagner – Então, é como eu disse: normalmente os personagens têm abordagens diferentes, assim, especialmente no teatro. Eu gosto demais de fazer teatro. Acho que este espaço aqui [o palco] é o espaço do ator por excelência, então aqui pode tudo. E no teatro de Shakespeare, no teatro elizabetano, aí é que podia tudo, mesmo! Porque era um teatro que não tinha influência do teatro burguês, do teatro italiano, fechado, não tinha essa influência da televisão, não tinha influência do cinema. Era o teatro em sua forma...eu acho que Shakespeare é o maior nome da época em que se fazia o melhor teatro na história do teatro ocidental. Então, o que tem aqui é a liberdade total pra você exercer uma fisicalidade grande; é um meio, por excelência, expressionista. Eu tenho vontade de fazer, um dia, Tchekhov, Ibsen, mas me parece que nada é mais teatral do que Shakespeare, do que isso aqui.

89 – Os ensaios da peça foram gravados pra um documentário, e a estréia da peça também vai ser registrada pela Sandra Delgado [esposa de Wagner Moura]. Como foi este processo?

Wagner – Foi uma idéia dela, mas eu não me lembro bem de como surgiu. Mas ela é uma grande fotógrafa, muito ligada á fotografia documental e ao fotojornalismo, e também ligada à área social, trabalhou em favelas muito tempo como correspondente de um site, então ela tem essa coisa do documento como uma coisa forte no trabalho dela. E ela tem interesse pelo teatro, talvez pela convivência comigo, mas não só por isso, porque quando eu conheci ela, ela tinha feito um documentário em cima de uma peça que o Vladimir Brichta fez em Salvador, “Ecos”. Era uma colagem de fotos, um áudio-visual, um negócio legal pra caramba. Ela é uma mulher que se interessa pelo teatro. E aí, ela se interessou em mostrar pra ela própria, pro entendimento dela e dos outros. Eu próprio ia achar muito legal assistir a um filme, porque o teatro é muito legal, é uma arte coletiva, então você poder acompanhar como os atores lidam com este texto de Shakespeare, como um diretor como o Aderbal trabalha a cena – eu acho que o Aderbal merecia um documentário só dele – e tem todas as outras pessoas envolvidas na criação de uma peça de teatro: o cenógrafo Fernando Melo da Costa, os figurinos do Marcelo Pires, como ele cria essas roupas que são meio atemporais, que nem são roupas do século XVI, e nem são roupas dos tempos de hoje, o conceito de como é preciso construir roupas pra cena, que são diferentes das roupas cotidianas, a música que o Rodrigo Amarante está fazendo pro espetáculo... Então, é esta junção de artistas pra apresentar uma obra única. E eu acho muito interessante, e teria vontade de ver um documentário desse.

89 – E quando ele vai ser lançado?

Wagner – Ele vai ser exibido no dia 4 de julho no Multishow. E a idéia dela é fazer um filme, um longa metragem, e aí surgiu essa idéia super legal do Multishow que casou, e deu uma infra-estrutura muito boa pra ela trabalhar. Então, uns 45 minutos do filme vão estar montados pra este programa no Multishow, e depois ela vai montar também um filme de outro jeito – ela tem muito material porque ela acompanhou todos os dias. Eu chego a ficar agoniado com o tanto de coisa que ela tem; deve ser sufocante! Então era vai retrabalhar, com o restante deste material, e a idéia é chegar nos cinemas, mesmo.

89 – E depois que acabar esta temporada de “Hamlet” no teatro, o que você pensa em fazer?

Wagner – Eu pretendo continuar trabalhando, fazendo as minhas coisas... Eu te digo, com toda a sinceridade, que eu não consigo pensar em outra coisa, a não ser estar aqui. A gente nem estreou ainda! Eu gostaria de ficar muito tempo em cartaz com esta peça, acho que é um retorno importante que a gente está dando, ainda mais porque estamos fazendo com a Lei de Incentivo à Cultura, então é importante que a gente fique muito tempo em cartaz, e que muita gente possa ver a peça, então agora eu só consigo pensar nisso.

Fonte: 89.1 FM
Introdução: Andressa Santos