segunda-feira, 14 de julho de 2008

Wagner Moura tem atuação fascinante em Hamlet



Mais do que qualquer outro texto da dramaturgia universal, Hamlet propõe, em sua inesgotável possibilidade de análise e interpretação, múltiplas encenações que redimensionam a poética de Shakespeare. O jovem Hamlet, angustiado, cínico, cheio de dúvidas, arquiteto de uma vingança que se desconstrói na certeza da verdade, se transmuta a cada versão, levado a paroxismos de imagens e a espectros de matizes, sustentando-se na permanente consciência de que “nosso tempo (qualquer tempo) está fora do eixo”. É alguém que reflete a complexidade do ser humano, na exaltação dos sentimentos ou na miséria da existência.

A montagem de Aderbal Freire-Filho, que estreou há quase um mês no Teatro Faap e que deve ir ao Rio no início de 2009, não pretende inovar ou trazer qualquer provocação para a caminhada de Hamlet até o esgotamento da verdade e da certeza de que “o resto é silêncio”. Mas se mostra sintonizada com um certo impulso brasileiro para a representação, desbastando qualquer tom solene e lançando luminosidade por entre as frestas sombrias da tragédia. A começar pela tradução, de Wagner Moura, Bárbara Harrington e Aderbal, que encontra sonoridade “coloquial” sem perder o vigor poético e a fluência métrica. O palco se desvenda aos olhos da platéia, que, diante do cenário-coxia-bastidores de Fernando Melo e Costa e Rostand Albuquerque, pode assistir aos atores vestindo os figurinos de Marcelo Pires e captar a atuação por outro meio, a imagem dos atores em um telão. O jogo está a descoberto, as regras e o método estão expostos, como que para confirmar Shakespeare: “O teatro é um espelho da natureza”.

Crônica do tempo

O diretor reafirma o teatro como o artifício a que recorre Hamlet para apontar culpados e dar voz a seus fantasmas, confirmando que “os atores são a crônica de seu tempo”. As dúvidas, as hesitações, a vingança e o trágico cedem lugar à construção do teatro de um personagem. A aparente loucura de Hamlet nada mais é do que astúcia, e é na representação desse fingimento que essa versão se delineia. Hamlet é quase um bufão de própria tragédia, histriônica presença entre tantos atores de vidas canastronas, encenando o que precisa revelar. Nesta montagem, até certo ponto “solar”, Aderbal se debruça nas entranhas do teatro para trazer um Hamlet revivido na integridade poética e no vigor humano.

O elenco parece afinado mais na composição de um quadro do que na individuação do detalhe. Wagner projeta, como um malabarista de palavras e gestos, a dor do filho que tem o pai assassinado, revestindo a procura do culpado em interpretação astuciosa até a revelação, com uma força interpretativa em que a ironia e a manemolência se combinam para fazer de Hamlet menos melancólico e mais carnal. Uma interpretação rica e fascinante. Tonico Pereira é um Cláudio debochado, numa perspectiva desfocada da realeza culpada. Fábio Lago (Laertes) demonstra bem a “virada” final do personagem. Gillray Coutinho uma vez mais prova, como um Polônio nada previsível, a alta qualidade de ator. Carla Ribas (Gertrudes), Georgiana Góes (Ofélia), Cláudio Mendes (Guildenstern), Marcelo Flores (Rosencrantz), Felipe Koury (Bernardo) e Caio Junqueira (Horácio) reconfirmam, com passionalidade, a perenidade de um texto sempre renovável. A atual é atraente na devoção ao teatro.

Fonte: JB Online
Texto editado por Andressa Santos