quarta-feira, 9 de julho de 2008

Ele não está para brincadeira



Depois da consagração em Tropa de Elite, Wagner Moura produz e encarna Hamlet, de Shakespeare. Aqui, ele fala do período melancólico na adolescência, da felicidade de trabalhar entre amigos e da tensão que é ter sua privacidade invadida o tempo todo: 'Eu exijo respeito'

É difícil imaginar que, depois de conquistar o público e a crítica como o Capitão Nascimento no filme Tropa de Elite, ou como o mau-caráter Olavo na novela Paraíso Tropical, ele ainda sinta um gelinho na barriga diante de um trabalho. Mas, após três anos longe dos palcos, o ator baiano de 31 anos não esconde certo nervosismo por interpretar Hamlet na peça dirigida por Aderbal Freire-Filho.

'Shakespeare representa o que há de melhor. Ninguém sai incólume depois de passar por ele', diz.

Envolvidíssimo com o projeto, Wagner assumiu pela primeira vez a produção executiva de um espetáculo. Colaborou também na tradução do texto (com palavras atuais) e opinou na escolha do elenco. Entre os atores estão dois amigos que contracenaram com ele em Tropa de Elite. Caio Junqueira, o Neto do Bope, encarna Horácio, o confidente do protagonista. Já Fábio Lago, o Baiano, surge na pele de Laertes, filho de Polônio, conselheiro do rei Claúdio. O clima nas coxias é de euforia e descontração. Mas Wagner, que começou fazendo teatro infantil em Salvador, não está para brincadeira.

'Não faço parte do jogo dos que querem aparecer a qualquer preço'

Disciplinado, focado e menos bonito que na TV, ele conta que desde os 14 anos tem loucura pela saga do príncipe dinamarquês que é tomado por vingança após a morte do pai e a coroação do tio. Na adolescência, Wagner tinha uma banda cover do grupo inglês The Cure (um dos mais deprês do mundo). Costuma dizer que era meio freak e melancólico e que o teatro o resgatou.

Entre colegas e conterrâneos, Wagner Moura agora se libera, faz piada e fala com o maior sotaque baiano, normalmente disfarçado nas falas de seus personagens. A ebulição dos bastidores inspirou a jornalista Sandra Delgado, com quem o ator é casado há oito anos e tem um filhinho de 1, o Bem. Entusiasmada com o momento teatral do marido, Sandra está produzindo o documentário Além Hamlet, que terá 40 minutos e será veiculado no canal Multishow.

'Ela registrou nosso processo de criação, nossas tentativas... É como se a gente corresse nu na rua', diz Wagner.

Por que Hamlet?
Porque é uma obra que deixa tonto. É a peça mais falada da história. E a mais complexa, mais contraditória. Hamlet é muito profundo. Às vezes, acho que não vou dar conta dele. É como um cavalo selvagem que está correndo. E eu tenho de segurar. A primeira vez que li, era garoto, tinha 14, 15 anos, foi antes de começar a fazer teatro. Morava em Salvador, era um menino que gostava de ler e freqüentava feiras de livro. Comprei uma tradução muito ruim, mesmo assim fiquei impressionado. Depois, comecei a ler outras traduções, li o original e comecei a achar que aquela era a coisa mais incrível que já tinha lido.

Você já declarou que era meio melancólico quando adolescente. E que só começou a fazer amigos e se enturmar com as aulas de teatro...
É verdade. Sempre fui fã de uma certa melancolia, acho que ela é necessária na vida. Adoro ouvir The Cure e Ian Curtis, do Joy Division, por exemplo.

É a primeira vez que produz. Como foi a experiência?
Em 17 anos de teatro, nunca tinha produzido nada. O prazer de ver o projeto se materializar é algo inédito pra mim. E estou adorando. Mas não estou sozinho, tenho um parceiro, o Sérgio Martins, que é meu brother. Na reta final, não há como ensaiar e ficar na produção. Tive de aprender a delegar.

Você captou recursos, correu atrás? Foi difícil ser produtor?
Acho que tudo soprou muito a favor. Em outubro, a gente teve a idéia. Na semana seguinte, ligamos para o Aderbal, depois fomos para São Paulo. Conseguimos o patrocínio do Bradesco de imediato. Ficamos uma semana correndo atrás, fechamos o teatro e voltamos. Inscrevemos o projeto na lei de incentivos e começamos a ver o elenco. Sempre tive vontade de trabalhar com a Georgiana Góes (atriz que faz a Ofélia na peça), que foi uma das primeiras amigas que fiz aqui no Rio. Fico muito feliz em poder trabalhar com amigos.

Qual é a coisa mais inusitada do espetáculo?
Acho que novidade interessante é a tradução, que foi feita pelo Aderbal, por mim e pela Barbara Harrington (professora de inglês americana radicada no Rio de Janeiro). Queríamos fazer um Hamlet que as pessoas entendessem, se emocionassem e saíssem do teatro felizes. Não é um espetáculo hermético nem tem aquele inglês elizabetano transformado para o português arcaico. O barato dele é que a gente fala o português de hoje. Por outro lado, a peça não tem uma cara moderna. Estamos numa floresta e o espectador acredita nisso. No palco, somos seres do século 21, mas ninguém aparece de terno Armani, por exemplo. Nosso Hamlet também não usa collant. (risos)

Mas produzir o documentário Além Hamlet, ao lado de sua mulher, é uma modernidade. Como surgiu essa idéia?
Foi idéia dela. Sempre achei que, se algum dia fosse mostrar o processo de criação, só a Sandra poderia registrar. É como se a gente corresse nu na rua. O filme vai mostrar a construção da peça, as coisas que deram certo e as que não deram. A idéia é exibir 40 minutos no canal Multishow e depois montar de outro jeito e lançar no cinema.

Fazer um clássico depois de viver um personagem tão marcante como o Capitão Nascimento, de Tropa de Elite, foi uma forma de exorcizar o personagem do filme?
A minha vontade de fazer Hamlet não tem nada a ver com o Capitão Nascimento. Não tenho problema com isso. Acho o personagem do filme um barato. Legal, popular, que as pessoas gostaram. Queria fazer teatro, no meio disso veio Hamlet. É um momento muito importante na minha carreira. Sem dúvida, fazer esse personagem agora mexe muito comigo.

O que levou você a publicar nos jornais um artigo criticando um segmento da imprensa que se dedica exclusivamente à cobertura das celebridades?
Se nós não tomarmos cuidado, em pouquíssimo tempo não haverá mais limite algum nesses programas de tevê que ridicularizam a imagem da pessoa pública. Logo a gente vai ver um ator levando uma paulada na cabeça ao vivo em nome desse sensacionalismo absurdo. Não freqüento a Ilha de Caras, não exponho minha vida pessoal e deixo claro que não faço parte do jogo dos que querem aparecer a qualquer preço. Eu exijo respeito.

Fonte: Criativa