quinta-feira, 5 de junho de 2008

O capitão Nascimento virou Hamlet



É difícil imaginar que depois de conquistar o Brasil e o exterior como o Capitão Nascimento, no filme Tropa de Elite, ou o público como o mau-caráter Olavo, na novela Paraíso Tropical, Wagner Moura ainda sinta um friozinho na barriga diante de um trabalho. Mas, após três anos longe dos palcos, o ator baiano de 31 anos não esconde um certo nervosismo para interpretar Hamlet na peça dirigida por Aderbal Freire-Filho, que estréia no dia 20, no Teatro Faap, em São Paulo. “William Shakespeare representa o que há de melhor. Ninguém sai incólume depois de passar por ele”, assegura o ator.

A paixão pela história do príncipe atormentado que promete vingar a morte do pai é muito forte na vida de Wagner. Tanto que, além de viver o personagem de Shakespeare no palco, o ator se aventurou em outras searas: fez a produção executiva do espetáculo e ainda colaborou na tradução do texto, assinada por Aderbal. “Queríamos um Hamlet que comunicasse”, explica. Wagner também opinou na escolha do elenco, que conta ainda com Georgiana Góes, Caio Junqueira, Tonico Pereira, entre outros. Apesar do texto, ninguém deve esperar um espetáculo moderninho, com cenário futurista ou figurino alternativo. “Hamlet não vai usar collant”, diverte-se.

A montagem rende também um documentário, Além Hamlet, produzido por Sandra Delgado, mulher do ator. Entusiasmada com a primeira montagem do marido, Sandra registrou tudo e já vendeu 40 minutos da produção para o canal Multishow.

No segundo semestre, o ator também poderá ser visto nos cinemas. Em Romance, de Guel Arraes, Wagner vive um diretor que convida a ex-mulher, interpretada por Letícia Sabatella, para produzir Tristão e Isolda. Televisão, por enquanto, apenas no ano que vem. “Só quero pensar na peça”, avisa. “Hamlet é como um cavalo selvagem que está correndo. Mas eu vou segurar com todas as forças”.A peça deve ficar em cartaz por aqui até outubro.

Em entrevista a Época São Paulo, Wagner Moura fala de seu Hamlet

ÉPOCA SP - Há três anos você não faz teatro. Sua última peça, O Dilúvio, encerrou temporada em São Paulo. Agora, você escolheu a cidade para estrear Hamlet...
WAGNER MOURA - Mercadológica e artisticamente falando, é melhor estrear em São Paulo. O Dilúvio, por exemplo, não foi bem no Rio. Em São Paulo, foi uma ovação. Quando recebi o prêmio da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte), disse que achava São Paulo o melhor lugar de crítica. É uma das cidades, talvez a única, em que o teatro ainda tem um lugar no circuito cultural. No Rio e em Salvador, que têm até uma tradição legal no assunto, ele está relegado a um lugar muito ruim. Ficamos em cartaz na cidade até outubro. Depois, estreamos em Salvador e, em 2009, no Rio.

ESP - É a primeira vez que você interpreta uma peça de Shakespeare. Todo ator tem que passar por essa experiência?
WM - Não sei se tem que fazer. Mas Shakespeare representa o que há de maior. É o melhor expoente da época que tinha o melhor teatro, a saída da Idade Média que caminhava para o Renascentismo. Talvez Shakesperare não tenha paralelo na dramaturgia. E ninguém sai incólume depois de passar por ele.

ESP - E por que Hamlet?
WM - Porque é uma peça que deixa tonto. É a mais contada, a mais falada da história. E a mais complexa. A primeira vez que li, era garoto, tinha 14, 15 anos, foi antes de começar a fazer teatro. Morava em Salvador, era um menino que gostava de ler e freqüentava feiras de livro. Comprei uma tradução muito ruim. Mesmo assim, fiquei impressionado. Depois, comecei a ler outras traduções, li o original, sempre achando que aquela era a coisa mais incrível que já tinha lido.

ESP - Fazer um clássico depois de viver um papel tão marcante como o Capitão Nascimento, de Tropa de Elite, foi uma forma de exorcizar o personagem do filme?
WM - Minha vontade de fazer Hamlet não tem nada a ver com o Capitão Nascimento. Não tenho problema com o sucesso do personagem, acho um barato. Legal, popular, que as pessoas gostaram. Queria simplesmente fazer teatro. E, no meio disso, veio o Hamlet. É um momento muito importante na minha carreira. Sem dúvida, fazer esse personagem agora vai mexer muito comigo.

ESP - O que faz seu Hamlet diferente dos outros?
WM - Acho que a novidade interessante é a tradução, que foi feita pelo Aderbal (Freire-Filho), por mim e pela Barbara Hamilton. E é muito significativa. Queríamos fazer um Hamlet que comunicasse, que emocionasse as pessoas. Que elas entendessem o drama do personagem e saíssem do teatro felizes. Não vai ser um espetáculo hermético, nem ter aquele inglês elizabetano transformado para o português arcaico. O barato vai ser falar o português que a gente fala hoje, como seres do século 21. Mas a peça não vai ser moderna. Não tem essa cara. Estamos numa floresta e o espectador acredita. São seres do século 21, mas ninguém vai aparecer de terno Armani. Hamlet não vai usar collant (risos).

ESP - Hamlet é um ser atormentado. Personagens que vivem em conflito com eles mesmos são mais interessantes?
WM - Sem dúvida. Quanto mais complexo e mais contraditório, melhor. E Hamlet é muito profundo. Certamente o meu não será perfeito – até porque isso não existe. Cada ator traz um pouco de si para o personagem. Mas, às vezes, acho que não vou dar conta dele. É como um cavalo selvagem que está correndo. Mas eu vou segurar com todas as forças.

ESP - Essa é sua estréia como produtor. Foi difícil?
WM - Acho que tudo soprou muito a favor da gente. E foi tudo muito rápido. Em outubro, tivemos a idéia. Na semana seguinte, ligamos para o Aderbal, depois fomos para São Paulo. Conseguimos o patrocínio do Bradesco de imediato. Ficamos uma semana correndo atrás, fechamos o teatro e voltamos. Inscrevemos o projeto na Lei de Incentivos e começamos a ver o elenco. Sempre tive vontade de trabalhar com a Georgiana (Góes, que faz a Ofélia na peça), que é uma das primeiras amigas que tive aqui no Rio. Fico feliz em agora poder trabalhar com amigos.

ESP - O espetáculo está rendendo também um documentário, Além Hamlet, dirigido por sua mulher, Sandra Delgado. Como isso começou?
WM - Nem sei ao certo, mas foi idéia dela, que está acompanhando tudo desde o primeiro dia. Sempre achei que, se algum dia fosse mostrar o processo de criação, só a Sandra poderia registrar. É como se a gente corresse nu na rua. Ela vai mostrar o início, o processo de criação, de construção da peça. Vai mostrar o mal-acabado. A idéia é exibir 40 minutos no Multishow e, depois, montar de outro jeito e lançar no cinema.

Fonte: Época SP