domingo, 15 de junho de 2008

''Não acredito nesse mundo de celebridades"




Wagner Moura encara o desafio de interpretar Hamlet e se considera apenas um trabalhador que aparece na tevê
Aos 31 anos, o ator Wagner Moura está realizando o seu primeiro sonho de juventude: encarnar no teatro o personagem Hamlet na peça homônima de William Shakespeare, um dos papéis mais difíceis de toda a dramaturgia. Saído de dois papéis extremamente populares na tevê e no cinema, o ator baiano, casado e pai de um menino, quer ficar pelo menos dois anos viajando com o espetáculo, que estréia em São Paulo na sexta-feira 20, no Teatro da Faap. Para isso, não renovou seu contrato com a Rede Globo e decidiu produzir a peça com o amigo Sérgio Martins.

"Sem estar ganhando salário, posso recusar um papel"
, diz o ator, que detesta posar de celebridade:

"Não me interesso por esse universo, ninguém nunca me viu na Ilha de Caras". Bastou, contudo, ele aparecer na porta do hotel em São Paulo para fazer as fotos, e já chamava a atenção dos fãs. "Pede pra sair, 02", gritavam, lembrando uma expressão que Moura popularizou no papel do policial do Bope. Na entrevista a seguir, o ator fala da fama, de violência e de como recusou os tipos de pobre e nordestino.

ISTOÉ - Por que decidiu interpretar Hamlet?
Wagner Moura - Por uma vontade de fazer teatro, que é uma coisa importantíssima para mim e foi onde eu comecei. Depois é que veio o Hamlet. Eu tinha um projeto, estava até escrevendo, que tratava do medo, de síndrome do pânico. Quando eu fiz o Capitão Nascimento em Tropa de elite, o personagem sofria de uma doença parecida. Eu não sabia como era, comecei a perguntar e fiquei impressionado. Eu estava fazendo um curso sobre Shakespeare no cinema e aí, vindo do Projac, dirigindo, me perguntei: por que não Hamlet?

ISTOÉ - Você vem de dois personagens muito populares, que são o Olavo, de Paraíso tropical, e o Capitão Nascimento. Vai também popularizar Hamlet?
Moura - Quero fazer um Hamlet que as pessoas assistam e entendam. Eu não acredito no hermetismo dessa peça, ela é muito popular.

ISTOÉ - A tradução é mais coloquial?
Moura - É mais fácil montar Shakespeare em países que não falam inglês do que nos EUA e na Inglaterra. Quando se traduz, já se coloca o que ele estava querendo dizer naquele inglês elisabetano, que não é nem o inglês que os ingleses falam hoje. O grande problema da maioria das traduções, que têm ambições literárias, é pegar o inglês elisabetano e traduzir para um português arcaico.

ISTOÉ - É difícil declamar o "ser ou não ser"?
Moura - No começo dava vergonha de dizer essa fala, mas colocamos um foco nesse monólogo, queremos que as pessoas saiam do teatro entendendo o que ele quer dizer. Agora a vergonha passou, fiquei mais seguro.

ISTOÉ - E a cena da caveira?
Moura - Como a caveira é o maior símbolo da peça e o "to be or not to be" é o texto mais conhecido, as pessoas tendem a juntá-los. Acham que Hamlet pega a caveira e diz: ser ou não ser. Mas a história da caveira acontece lá na frente, na cena dos coveiros. Quando eu pegava a caveira, também me dava um certa agonia.

ISTOÉ - Você é produtor do espetáculo?
Moura - Sou. Uma peça como essa as pessoas raramente te chamam para fazer. Se o próprio ator não produzir, como é que vai fazer?

ISTOÉ - É possível realizar um teatro profissional sem choramingar pela ajuda do Estado?
Moura - Sem leis de incentivo não se consegue levantar uma produção. Elas são o instrumento fundamental não só para o teatro como para o cinema. É claro que hoje em dia, no Brasil, essa legislação precisa ser discutida no que diz respeito aos critérios de distribuição do dinheiro e em relação à forma como a parceria com a iniciativa privada se dá. Mas atualmente é a única opção de mecenato que existe. O orçamento do Ministério da Cultura é menos de 1%. Eu gostaria que o ministro Gilberto Gil tivesse mais poder, mais dinheiro. Se as leis pararem, pára tudo.

ISTOÉ - O que acha da tentativa de diminuir a verba destinada às atividades do Sesc, dirigindo parte dela para a educação?
Moura - Discordo completamente. O Sesc é um instrumento importantíssimo de patrocínio cultural e não concordo com essa postura de "ou cultura ou educação". Acho que as atividades devem caminhar juntas. Por que sempre que algum setor importante fica ameaçado, a cultura é a primeira a rodar?

ISTOÉ - Se você não fosse Wagner Moura, teria conseguido verbas para encenar Hamlet?
Moura - Talvez não. Com certeza, o fato de eu ter me tornado um ator popular ajudou bastante na hora de captar recursos para a peça.

ISTOÉ - Sua trajetória de sucesso é muito rápida. Considera-se um homem de sorte?
Moura - Sim, mas tem um trabalho aí também. As pessoas acham que eu comecei com A máquina (2004). Mas eu fiz minha estréia nos palcos em 1992, aos 15 anos. Em Salvador eu me virava fazendo teatro como todos os atores de lá. A gente não tinha como fazer televisão. Mas a sorte existe também e o fato de eu ter chegado ao eixo Rio- São Paulo numa hora em que o cinema brasileiro estava procurando caras novas e diferentes ajudou bastante.

ISTOÉ - Como aconteceu a televisão?
Moura - Minha ida para a tevê foi uma forçada de barra. Quando me chamaram para fazer uma novela (A lua me disse, 2005) e interpretar justamente um papel de galã, eu quase não acreditei. Achei aquilo muito esquisito. Primeiro porque eu nunca fui galã de nada. Na época de A máquina eu fui me cadastrar na Globo e me lembro que dei uma espiada na ficha da mulher e vi opções para quatro características. O cara podia ser estrela, podia fazer outro papel que não recordo e logo abaixo vinha a opção "tipos". E eu fui colocado como "tipos". Sempre achei que podia fazer personagens dessa categoria, provavelmente nordestinos, pobres.

ISTOÉ - Mas não foi o que aconteceu em A lua me disse.
Moura - Não deve ter sido uma decisão fácil lá dentro da Globo. Eu imagino que o Miguel Falabella deve ter dito que eu era um bom ator, que a emissora deveria me chamar e acreditar.

ISTOÉ - Como fez para sair rápido do tipo nordestino?
Moura - Eu saquei logo esse perigo e recusei um bocado de propostas, tive que ser duro e às vezes ficar até sem trabalho para não repetir algo que já tinha feito.

ISTOÉ - Esse é também um perigo para atores brasileiros que partem para o mercado externo. Você teve propostas com a premiação de Tropa de elite no Festival de Berlim?
Moura - Depois do festival eu passei a ter um agente nos EUA, mas ainda não nos encontramos. Ele está vindo ver a peça.

ISTOÉ - Está investindo na carreira no Exterior?
Moura - Eu falo bem inglês, portanto a carreira internacional é uma possibilidade. Hollywood é ótima, eu adoraria fazer um trabalho legal nos EUA, mas vejo o cinema hoje como uma coisa globalizada. Acho mais fácil trabalhar na Europa, na China, na Argentina.

ISTOÉ - Recentemente você escreveu um artigo criticando programas como Pânico na TV! (Moura foi alvo de uma brincadeira do programa há algumas semanas). Por que fez isso?
Moura - Eu escrevi aquela carta aberta não endereçada especificamente ao Pânico. Eu aproveitei aquele episódio para falar de algo que eu queria tratar há muito tempo, que é essa coisa que se criou em torno das pessoas que aparecem na televisão. O que eu queria dizer é que nem todo mundo é obrigado a participar daquelas situações.

Fonte: Istoé