quarta-feira, 11 de junho de 2008

A Coragem de ser Hamlet




Premiado na televisão e no cinema, Wagner Moura se arrisca ao encarar um dos papéis mais difíceis do teatro, um dos poucos com força para consagrar ou demolir a carreira de um ator.Peter Parker, o Homem-Aranha dos quadrinhos, consegue pressentir o perigo. Não faz muito tempo, o ator Wagner Moura acreditava que, a exemplo do super-herói de quem confessa gostar até hoje , também pudesse se guiar por um radar interno para fugir de situações de risco. Há pouco menos de um ano, no entanto, algo que sempre lhe havia parecido ameaçador mostrou-se um caminho para ele se reinventar como ator. Numa noite, voltando das gravações da novela Paraíso Tropical, no Rio de Janeiro, Wagner teve um insight. Tinha acabado de se inscrever num curso sobre Shakespeare no cinema e, naquele momento, dirigindo no caminho de volta do Projac, a cidade cenográfica da Globo, fez se a pergunta: por que não montar Hamlet?

A relação de Wagner com a saga do jovem príncipe que hesita em vingar o assassinato do pai pelo tio começou quando ele tinha 15 anos, em Salvador, cidade onde nasceu. Na época, comprou em uma feira do livro uma edição da peça cujo título ele se lembra ainda se grafava à maneira lusitana, Hamleto.

"Era uma tradução muito antiga e ruim, mas ainda assim adorei. Eu era um garoto melancólico e achei aquilo lindo. Comecei a comprar outras traduções ao longo do tempo, e a peça acompanhou minha carreira de ator. Essa sombra de Hamlet, esse espectro, a teatralidade da peça, a dramaticidade e a complexidade do personagem, a trama, tudo isso ficou dentro de mim até hoje", diz Wagner.

"A sombra de Hamlet está em vários personagens que fiz. O Olavo, vilão de Paraíso Tropical, por exemplo, não era nada mais do que um cara que perde o pai e precisa representar seu nome na terra."

Ser ou não ser Hamlet? A pergunta, no universo do teatro, ecoa ainda mais profunda do que no famoso trecho que, segundo o estudioso Harold Bloom, foi fundador do monólogo interior na literatura ocidental. Ser Hamlet significa encarnar o papel mais importante da literatura para teatro, de acordo com o mesmo crítico. Não ser é fugir a um desafio que, ao longo da história do teatro, provou não ter meio-termo: ou consagra um ator ou abala sua carreira, como se verá a seguir.

"Adoro aquela frase do Glauber Rocha que diz que a arte não é só talento, mas também coragem", diz Wagner, que sempre procurou imprimir essa visão em suas escolhas profi ssionais. Foi assim ao aceitar viver dois anti-heróis recentes na TV e no cinema o já citado Olavo de Paraíso Tropical e o truculento Capitão Nascimento do filme Tropa de Elite, papéis que o transformaram num dos melhores, mais conhecidos e premiados atores do país. E é com coragem redobrada até por causa de sua grande exposição na mídia que ele encara o desafio de ser Hamlet na montagem dirigida por Aderbal Freire Filho que estréia neste mês no Teatro Faap, em São Paulo.

Coragem é fundamental, mas não suficiente. É preciso uma cuidadosa preparação. Afinal a partir de uma reparação que incluiu ler mais de uma dezena de livros, entre os quais títulos como a biografia Shakespeare, uma Vida, de Park Honan, e os ensaios Ser ou não Ser, de Douglas Buster, e I'm Hamlet, de Steven Berkoff. Além disso, assistiu a todas as nove adaptações para o cinema disponíveis no Brasil.

"Todo Hamlet tem alguma coisa para mostrar, porque o personagem é tão grande que um ator só não vai nunca abarcar esse cara. Não posso dizer que eu tenha pegado algo específico de cada um dos que vi, mas e motivou muito ver como cada um trouxe a introspecção do personagem, a vivacidade", diz ele. Para Wagner, o melhor Hamlet do cinema é o de Ethan Hawke. O filme, dirigido por Michael Almereyda, transporta a história do castelo dinamarquês Elsinore para a Nova York contemporânea, em que Dinamarca é o nome de uma corporação. A adaptação faz o mais famoso monólogo acontecer dentro de uma locadora Blockbuster em que Hawke internaliza seus conflitos com um "Ser ou não ser?" entre asprateleiras. Se a atuação de Hawke não é das mais convincentes, o filme incentivou Wagner a pensar em um Hamlet mais adaptado ao presente.

Durante toda a pesquisa, Wagner descobriu que o que mais existe são teorias acerca dos "aspectos psicológicos" da peça e do autor. Seria Hamlet, na verdade, filho do tio, cláudio,amante de muitos anos de sua mãe, Gertrudes? Seria seu pai um mau marido e mau governante, merecedor do adultério do qual foi vítima?Existe uma relação incestuosa entre o príncipe e a mãe?

"Chegou uma hora que eu não agüentava mais ler sobre elas, e parei. Se você começar a ler tudo que já foi escrito sobre Hamlet, não vai acabar nunca, enlouquece. É óbvio que tem que ler bastante, como eu li, mas tem um momento em que você deve parar e ler só a peça. Não tem nada melhor do que Hamlet para aprender sobre Hamlet."

Esse trabalho de contato direto com a peça foi ainda mais profundo. Com o elenco e o diretor, Wagner leu ao todo nove traduções diferentes.

"É o maior e mais complexo personagem do teatro, e eu achava que antes dos 30 anos não estaria preparado para fazer, nem sei se realmente estou. Além disso, eu talvez alimentasse uma fantasia de ter a idade próxima do personagem. Mas eu tenho certeza de que o teatro não pede esse tipo de realismo." Paulo Autran tinha opinião diferente. O ator, que viveu nos palcos cinco das tragédias mais representativas de Shakespeare, entre elas Macbeth e Rei Lear, lamentava ter perdido o timing de representar o papel do príncipe da Dinamarca. "Se o Paulo estivesse aqui e fizesse Hamlet, seria sensacional. A idade certa é a idade interna do ator, aquela em que se está apto a questionar as impossibilidades da humanidade", diz Marco Ricca, que interpretou o personagem em 1996, em montagem dirigida por Ulysses Cruz.
Independentemente da idade do intérprete, com freqüência a peça muda sua biografia, carreira e até visão de mundo.

"Você abandona muita coisa da sua vida pessoal, larga tudo pra fazer um pedaço de um sonho. Invariavelmente, vai sair machucado. É impossível passar por Hamlet ileso como ser humano; é despencar vertiginosamente, mexer com fantasmas muito profundos dentro de você. Faz você repensar a humanidade, sua vida, e esse é o grande barato." Um sonho, como diz Wagner, e a ambição de chegar a um novo patamar na arte movem os atores que encaram o desafio.

O britânico Laurence olivier, único ator a ganhar o Oscar com um Shakespeare - melhor ator e melhor filme de 1948 -, cadeu tardiamente à ambição, vivendo o personagem aos 41 anos, cerca de dez acima da provável idade do príncipe. Saiu consagrado da empreitada. Para Barbara Heliodora, crítica teatral brasileira especializada na obra de Shakespeare e tradutora de diversas peças do autor, Hamlet, de fato, pode ser o divisor de águas na carreira de um ator. "Além de ser algo extremamente gratificante, é um desafio que todos, no fundo, querem enfrentar. Ter sucesso nesse papel tornará o ator respeitável, porque Hamlet é um teste muito forte", avalia. Foi assim com Marcelo Drummond, que em 1993 apresentou, com direção de José Celso Martinez Corrêa, no Teatro Oficina, em São Paulo, uma montagem ambiciosa da obra, com cerca de cinco horas de duração. Era apenas a segunda peça na sua carreira. "Foi um papel que me transformou completamente, porque depois dele pude defi nitivamente me considerar ator. Hamlet me jogou no teatro, e logo de cara no teatro do maior gênio de todos os tempos, Shakespeare."

Para Barbara, o melhor intérprete de Hamlet no cinema foi o russo Innokenty Smoktunovsky. Sob direção de GrigoriKozintsev, em 1964 o ator construiu uma versão que equilibrava em sua personalidade boa parte das características descritas com sutileza por Shakespeare nas falas do personagem: ironia ferrenha, leve comportamento aristocrático, consternação,inteligência e consciência extremamente ágeis. Sua atuação é tida como uma das maiores até por quem também obteve êxito no papel, como o inglês sir John Gielgud. No total, foram dez as vezes em que Gielgud esteve envolvido como texto de Shakespeare. Em 1964, dirigiu uma versão com Richard Burton no papel-título.

O ator Kenneth Branagh, outro admirador da concepção de Smoktunovsky, conduziu em 1996 uma adaptação para o cinema que, entre outros méritos, é a única a filmar todo o texto da peça. Ao contrário da composição dramática escolhida por Laurence Olivier, mais focada no trabalho vocal, Branagh realizou um Hamlet mais físico, mantendo a vitalidade e a paixão do personagem por meio do gestual, o que terminou por lhe render uma indicação ao Oscar de melhor ator.

Barbara diz que a direção é importantíssima tanto que atribui o fracasso de Mel Gibson no papel às escolhas erradas de Franco Zeffirelli no fi lme de 1990. E qual linha o diretor Aderbal Freire Filho irá usar? A concepção do encenador vem sendo lapidada desde a tradução, assinada pelo próprio Wagner, a colaboradora Barbara Harrington e Aderbal. Enquanto o ator e Barbara preparavam o material bruto, o diretor lapidava a forma poética necessária à prosa shakespeariana, tentando manter ao máximo o jogo de palavras com duplo sentido e o ritmo de texto do autor. "Não buscávamos a coloquialidade, e sim a clareza de uma poesia não rebuscada", diz Aderbal. O diretor lembra que Hamlet é a peça de Shakespeare que mais fala de teatro. Sua concepção de montagem reflete, de certa forma, os conselhos que o próprio protagonista dá aos atores que interpretam uma peça dentro da peça o momento capital em que, vendo seu crime encenado no palco, o rei Cláudio, tio de Hamlet, se perturba e revela sua culpa: cada", diz Aderbal. O diretor lembra que Hamlet é a peça de Shakespeare que mais fala de teatro. Sua concepção de montagem reflete, de certa forma, os conselhos que o próprio protagonista dá aos atores que interpretam uma peça dentro da peça o momento capital em que, vendo seu crime encenado no palco, o rei Cláudio, tio de Hamlet, se perturba e revela sua culpa:

(Ato 3, Cena 2)

''Hamlet: Ajustai o gesto à palavra, a palavra à ação. Com esta observância especial, que não sobrepujeis a moderação natural. Pois qualquer coisa exagerada foge ao propósito da representação''


A montagem de Aderbal evita a grandiloqüência. Busca a comunicação por meio da simplicidade. A começar pelos cenários: um espaço cênico no centro, com duas laterais onde os atores permanecem todo o tempo, assistindo, como a platéia, à ação que se desenrola. Nessas estruturas, com aparência de coxias, se passa também grande parte das trocas de roupa, assim como as de papéis entre os atores. Tudo para sublinhar o conceito principal do espetáculo — o teatro que se assume como tal e não esconde seus bastidores.

Essa economia de recursos não facilita o trabalho do ator. Hamlet é uma das peças com maior quantidade de texto. Se o espetáculo terminar por manter a peça na íntegra, como é a intenção de Aderbal, só a parte de Hamlet compreende cerca de 1,5 mil falas, somando-se os trechos em verso e prosa, o que dá quase 40% da peça.

"A quantidade de texto é só o começo, porque, acima de tudo, o personagem é muito contraditório e grande. Ele é uma pessoa mais inteligente, mais espirituosa e mais viva que a maioria de nós", diz Wagner.

Durante os ensaios, em um casarão no Jardim Botânico, no Rio, Wagner procurou levar uma rotina que o mantivesse concentrado para facilitar a memorização. O dia começava pelo ritual da passagem do texto com o assistente de direção, Fernando Philbert. Invariavelmente manuseando algum objeto — uma maçã, um biscoito ou mesmo uma bola de vôlei abandonada —, o ator dizia sozinho as falas. Quando nada lhe vinha à memória, era ajudado por Philbert, sempre com o texto em mãos para conferir e corrigi-lo.
Em determinado momento, Wagner diz:

"Escrevi com letra caprichada"
. Philbert, de pronto, faz a correção: "Escrevi caprichosamente". A cada tropeço, o ator repetia o gesto de levar as mãos à testa, cobrindo também os olhos. De pé, chutava o ar e, sentado, movimentava
os pés ritmadamente.

Quando se sente pronto, Wagner parte para o aquecimento vocal e corporal, que inclui um ensaio de esgrima para a cena da batalha com o ator Fábio Lago — o Baiano de Tropa de Elite —, que fará o papel de Laertes, o amigo que, no final, acaba duelando com Hamlet. O resultado de toda a preparação é um Wagner que, na hora de interpretar, faz uso de gestos grandiosos e caminha bastante pelo palco. Nos momentos em que finge estar louco, o ator se apóia em um tom fortemente cômico, fazendo movimentos de dança.

Hoje, Wagner assegura que não tem mais medo do desafio. Nem das inevitáveis comparações, que, segundo ele, são um estímulo para que o texto de Shakespeare seja cada vez mais montado.

"Internamente, na musculatura do ator, Hamlet é um rito de passagem. O meu não será nunca o Hamlet definitivo; será apenas mais uma montagem. Não tenho nenhuma pretensão maior, a não ser ter o prazer de passar por ele e apresentá-lo aos outros. E sei que não há a possibilidade de dar conta de Hamlet em sua totalidade, porque ele é um cavalo selvagem que corre com muita vida. É muito maior que eu. Isso não me assusta; ao contrário, me dá paz."

Nem será preciso aguardar o fim da temporada para que o ator sinta os reflexos da experiência. O próprio processo de preparação já promoveu mudanças na sua carreira e na sua vida.

"Hamlet não só vai me transformar como já está transformando. Vejo que o caminho para compor um personagem é mais reto do que o barroquismo com que antes eu me preparava para cada papel, e que é na ação que se constroem as coisas", avalia.

"Estou mais maduro, ficando mais adulto — ainda que continue gostando do Homem-Aranha."

Fonte: Bravo! Online