quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Vogue: Wagner Moura


Ninguém duvida: Nosso homem do ano não é apenas um sucesso passageiro.
Ele veio para ficar.

Wagner Moura não tem frescura. Porque ator costuma ser um bicho estranho, que parece estar representando mesmo fora do palco.Ou seja, continua trabalhando. Wagner Moura é diferente. Ele não tem frescura, mesmo sendo o melhor ator do momento. Tão bom e transcendente, que nós o escolhemos Homem Vogue do Ano. é duvida que ele seja o Homem do Ano?

"É um momento, daqui a pouco acaba"
, ele diz.

Acho que não acaba, porque Wagner é simplesmente um grande ator. E vai continuar sendo mesmo sem a Globo, já que não tem contrato com ela.

Todo esse preâmbulo serviu para dizer que ao me aproximar dele na noite em que estava fazendo as fotos da nossa capa, imaginei que fosse encarar o pior dos mundo, aquele cujo centro é uma estrela cansada, mal-humorada, montada em saltos altos, representando uma estrela cansada, mal-humorada e montada em saltos altos.Vi os bastidores das fotografias que estão em todas essas páginas dedicadas ao Homem Vogue do Ano. E o Wagner Moura que eu vi foi solícito, modesto, sem voz impostada, inteligente e articulado.Ou seja, um sujeito com quem você gostaria de bater um papo longe dos holofotes.

Wagner fez tudo o que Bob Wolferson pediu. Bob confidenciou, aliás, que de vez em quando encontra uns atores que são osso duro de roer.

Não o Wagner. Ele pula, tira a camisa, dança ao som de Red Hot Chilli Peppers, vai na levada do Bob. Aliás, eu também vi o ator nos bastidores do Tim Festival, na noite da Bjork e The Killers. Quando fui apresentado a ele, no dia das fotos da capa, ficou aquele papo de velho: "Não aguentei e fui embora depois da Bjork. Não vi nem Arctic Monkeys!". Pois é, eu também não. Engraçado que eu só fui notar que era Wagner Moura passando na ala VIP quando ouvi um adolescente soltar a clássica exclamação: "Capitão Nascimento!". O Capitão Nascimento havia acabado de passar e dava agora um abraço afetuoso em Thais Araujo, mulher de Lázaro Ramos, grande amigo do Capitão Nascimento. Mas você de velho não tem nada, eu digo. É um garoto de 31 anos, na mesma faixa do Lázaro. "Não, o Lázaro faz questão de dizer que ele é mais novo, tem 29."

Wagner Moura não tem frescura. Está sentado tranqilo no centro dos holofotes, por causa do maior vilão do ano, em Paraíso Tropical, e o maior herói do ano, em Tropa de Elite, posição que ele não gosta muito de ocupar porque o Capitão Nascimento também é um excelente torturador.

Se o Olavo da novela não tivesse os trejeitos de Wagner Moura, não teria sido tão malvado. Se Tropa de Elite não fosse um filme de ação tão bem feito e seu protagonista¨um ator perfeito, será que teria feito tanto sucesso? Wagner cresceu na novela. E tomou o filme para si, ofuscando os outros atores, essa é que é a verdade. Mas não foi fácil. Os dois meses de treinamento com Fátima Toledo, preparadora de atores, e oficiais do BOPE, preparadores de recrutas foram pesados.

"Foi a coisa mais inacreditável que eu já vivi com ator"
, ele diz.

E o nariz do Capitão Storani, que você quebrou, eu pergunto?

"Foi um detalhe dentro do processo de trabalho, ampliado por uma entrevista do Capitão"
, ele responde.

Falando assim parece um pouco burocrático. A verdade é que ele quebrou o nariz do Capitão Storani depois de ter sido provocado até a medula, dentro de um ritual de treinamento que incluia tapas na cara e comida no chão, além da perda consciente da identidade: aquilo que se vê no filme. O que Storani não sabia é que Wagner é chegado em lutas marciais. Ele treina jiu-jitsu e boxe tailandês. O fato é que os atores foram tratados como aspirantes, e tiveram que fazer valer a aprovação dos homens do BOPE.

"Ficamos todos malucos"
, diz o ator, já dentro dos óculos de míope que usa para ser o cara normal que parece ser.
"A gente queria ganhar aquela caveira".

Significa que queriam pertencer ao BOPE.

"Não tinha mais esse neg?cio de fazer filme"
, ele confirma, rindo.
"Eu, o Storani, o Pimentel (outro oficial treinador) e o Padilha (o diretor do filme) escolhemos a equipe do Capitão Nascimento."

Na vida real, Tropa de Elite cumpriu um pouco de seu objetivo inicial, que era ser um documentário. Muita gente acha que é, inclusive, culpa da verossimilhança que atores como Wagner Moura conseguiram levar para dentro do filme, ao custo de muito sofrimento. Depois, vieram as entrevistas para a imprensa.

"Tinha que vestir uma armadura para ir as coletivas. Foi muita porrada."
, ele diz.

O filme foi acusado de fascista. Wagner, lembrando seus tempos de jornalista na Bahia, escreveu um artigo em O GLOBO defendendo Tropa de Elite, e ao mesmo tempo, a legalização das drogas, para acabar com o tráfico. E terminou com um argumento surpreendente, usando um jargão do Capitão Nascimento:

"Só mais um dado: sabe de quem partiu a idéia de legalizar as drogas na Holanda? Da polícia, parceiro."

Perto dessa experiência, as filmagens de Saneamento Básico, de Jorge furtado, feitas antes, foram pura alegria. E o vilão de Paraíso Tropical, executado no ritmo frenético de concentração que a TV exige, quase uma diversão. Tal velocidade ele aprendeu com Antonio Fagundes. Ou melhor, observando Antonio Fagundes em ação, porque muito provavelmente o ator nem teve tempo de explicar. Os dois trabalharam juntos na série Carga Pesada, em que Wagner fez o papel do filho do personagem de Stênio Garcia.

Wagner é muito querido na TV. Casado, pai de um menino chamado Bem, ator de primeira, vai fazer Hamlet no ano que vem, sob a direção de Aderbal Freire.

Wagner Moura é sem dúvida nenhuma o Homem Vogue do Ano, o primeiro desta nova fase da revista, que escolherá um novo Homem do Ano todos os anos. Depois de conversar com o sujeito ao vivo, eu digo, começamos muito bem.

Fonte: Homem Vogue