quarta-feira, 10 de outubro de 2007

"Que fique claro: eu não sou o Capitão Nascimento", diz Wagner Moura



Com olheiras profundas e fala lenta, Wagner Moura não esconde o cansaço. Poucos dias depois de protagonizar o final de “Paraíso tropical”, em que fez grande sucesso como o vilão Olavo, o ator baiano volta ao centro das atenções por conta do lançamento do filme “Tropa de elite”, que estréia nesta sexta-feira (5).

Em entrevista ao G1, o ator de 31 anos afirma que não se impressiona com a fama, mas que se irrita quando é comparado a seu personagem no longa-metragem. “Quero que isso fique claro, eu não sou o Capitão Nascimento. Essa confusão tem me incomodado”, diz. “Minha intenção nunca foi de fazer apologia à violência nem à repressão.”

A seguir trechos da entrevista

G1 - Como é ser visto pelo público como um herói na imagem do Capitão Nascimento?

Wagner Moura - Tem havido uma identificação grande por parte de algumas pessoas com o Capitão Nascimento. Não posso controlar a forma como as pessoas vêem o filme. Tem gente que acha que a solução para a questão da segurança pública é o confronto e a repressão. Eu não concordo com isso. Não tenho esse pensamento de direita. O que existe é uma confusão entre os personagens e os realizadores do filme. Minha intenção nunca foi de fazer apologia à violência nem à repressão. Eu assisto ao filme e acho uma tragédia aquele policial, pai de família, tentando sair dali, lidando com a violência todos os dias, entrando em favela e matando um monte de pessoas, torturando. Eu vejo o filme desse jeito, mas é lícito que outras pessoas vejam de outra forma.

G1 - Como você tem recebido essas reações?

Wagner - Comecei a ficar mexido quando começaram a sair artigos na imprensa dizendo que o filme era fascista. Não foi esse o filme que eu fiz. Eu entrei num projeto que pretendia mostrar o olhar do policial, que é importantíssimo. Todos os policiais que conheci durante o treinamento são da maior integridade, mas são pessoas que acreditam que a solução é entrar na favela e deixar corpo no chão. Eu não concordo, acho que a solução para a violência é investimento nas áreas carentes, é diminuir a desigualdade social. Eu acho primário e bobo confundirem a visão do personagem com a minha.

G1 - Isso te incomoda?

Wagner - Sim, isso me incomoda. As pessoas podem ver o personagem como quiserem, mas me incomoda que me identifiquem com essa visão dele. Eu não compactuo com esse ponto de vista, eu não sou o Capitão Nascimento. Quero que isso fique claro, eu não sou o Capitão Nascimento. Essa confusão tem me incomodado sim.

G1 - Você está no auge do sucesso na TV e no cinema...

Wagner - Foi uma coincidência, porque o “Tropa” era para ser lançado só em novembro, mas por conta da pirataria ele foi antecipado e casou com o fim da novela, que teve muita audiência. Então, de repente, eu comecei a dar muita entrevista para falar de várias coisas diferentes. Mas não me impressiono com isso não. Daqui a pouco tudo isso passa e as pessoas esquecem um pouco de mim.

G1 - Como tem sido a abordagem do público nas ruas?

Wagner - Tem gente que me chama de Capitão Nascimento, tem gente que me chama de Olavo. Mas a verdade é que eu tenho saído muito pouco na rua, tenho ficado mais em casa.

G1 - Como você entrou no projeto “Tropa de elite”?

Wagner - O José Padilha me convidou para entrar no filme e fiquei felicíssimo, porque eu era fã de “Ônibus 174”. Ele me mandou o roteiro, eu li, adorei e aceitei o convite. Ele disse para eu escolher qual papel eu queria fazer, e eu logo quis fazer o Capitão Nascimento. Inicialmente, ele queria que eu fizesse o Neto, mas achei que eu era muito velho para o papel, que acabou ficando com o Caio [Junqueira].

G1 - E preparação do personagem? Como foi?

Wagner - A gente teve uma preparação bem intensa, que misturou o trabalho com a Fátima Toledo e com os policiais do Bope, que nos treinaram para a gente poder representá-los da melhor forma possível, para que a gente parecesse caveiras de verdade. Foi um esforço muito físico e mais ainda psicológico, porque o curso do Batalhão de Operações Especiais é um massacre físico, mas é, especialmente, um negócio para quem tem dureza psicológica. O mais exigido é o emocional. Foi “hardcore”, muito sofrimento.

G1 - Em algum momento você teve vontade de sair?

Wagner - Eu sou um ator que gosta de se submeter a experiências. Sem dúvida foi a experiência mais louca que eu já tive na minha vida, mas eu não tive vontade de ir embora em nenhum momento. Eu queria vivenciar aquilo.

G1 - Com o lançamento do filme no exterior, você pretende investir numa carreira internacional?

Wagner - Espero que o filme vá bem lá fora, mas eu estou tocando minha vida normalmente aqui e vou continuar assim.



Fonte: G1