sexta-feira, 5 de outubro de 2007

O filme que virou caso de polícia



O filme Tropa de Elite, uma das maiores promessas de bilheteria do cinema brasileiro neste ano, deveria estrear apenas em novembro. Três meses antes, já entrou em cartaz nas bancas de camelôs. O DVD com uma cópia ilegal do filme está à venda, por R$ 10, em pelo menos cinco capitais do país. Para lançá-lo com tanta antecedência, a indústria da pirataria recorreu a uma estratégia inédita no país: subornou técnicos envolvidos numa das etapas da produção. Por R$ 5 mil, os piratas tiveram acesso a uma cópia digital, da qual foi possível extrair milhares de outras. “O filme foi levado para o exterior e replicado lá. Depois, entrou novamente no Brasil”, diz o secretário-executivo do Ministério da Justiça, Luiz Paulo Barreto, presidente do Conselho Nacional de Combate à Pirataria e Delitos Contra a Propriedade Intelectual.

O filme revela os bastidores da polícia do Rio de Janeiro sob o ponto de vista de dois ex-policiais do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro (Bope). É um candidato a seguir o rastro de êxito de produções do gênero, como Cidade de Deus e Carandiru. A produção, dirigida pelo premiado José Padilha (do documentário Ônibus 174), foi orçada em R$ 10 milhões, valor alto para os padrões nacionais.

O sucesso do filme, ainda que na versão pirata, reforça a previsão dos produtores de que ele poderá ser um campeão de bilheteria. Já foi exibido clandestinamente até em academias de ginástica da zona sul do Rio. Na zona norte, locadoras colocaram o DVD pirata nas prateleiras, para quem quiser alugar. Grupos de adolescentes se reúnem com amigos para assistir ao filme, que passa de casa em casa em sistema de rodízio. Uma sessão do filme foi exibida na Academia de Polícia do Rio de Janeiro. Quem investiu na pirataria teve um lucro fantástico.

A operação para lançar Tropa de Elite mostra a sofisticação atingida pelos piratas no Brasil. As cópias clandestinas têm capas iguais, apesar de ainda não existir uma imagem oficial da produção. Nelas, o título do filme aparece ao lado da imagem de um soldado extraída de um videogame. A padronização das capas, segundo Barreto, mostra que a fonte de todas as cópias à venda nos camelôs é a mesma. Na quarta-feira 29, o técnico de edição Marcelo dos Santos Lima foi detido, acusado de ter feito a cópia que deu origem aos DVDs piratas. Ele responderá em liberdade por violação de direito autoral.

O “vazamento” antecipado do filme revoltou o diretor José Padilha. Em artigo publicado no jornal O Globo, ele criticou a mídia e atacou os consumidores. Afirmou que a cópia vendida ilegalmente não é a versão final de sua obra e se mostrou preocupado quanto aos prejuízos que a pirataria pode acarretar. “Ao comprador de produtos piratas, quero lembrar que esses indivíduos (os produtores) têm família, e também precisam de suas rendas para sobreviver”, escreveu Padilha. Depois do artigo, ele resolveu não dar mais entrevistas sobre o assunto.
O filme aborda a violência de modo realista.Atira contra governo, polícia e sociedade – sem proteger ninguém

Apesar do eventual prejuízo que a versão pirata pode causar ao filme, até agora ela parece estar ajudando a promovê-lo. Também no jornal O Globo, o colunista Artur Xexéo afirmou que Tropa de Elite é o filme do ano. A edição ágil, o funk e o rock da trilha sonora agradam à molecada, que normalmente torce o nariz para filmes nacionais. Para completar a fórmula de sucesso, parte do elenco está na novela Paraíso Tropical, da TV Globo. É o caso de Wagner Moura, no papel principal, e de Fernanda Machado.

O filme tem como maior apelo o fato de abordar o tema do momento, sob um ponto de vista privilegiado. “Todo mundo quer discutir a polícia. Em todos os lugares a que eu vou, estão todos falando sobre o filme, virou um fenômeno”, diz Luiz Eduardo Soares, um dos autores de Elite da Tropa, o livro que inspirou o filme. Lançado em 2006, ele foi escrito a seis mãos. Além de Soares, que foi secretário nacional de Segurança (leia a entrevista), assinam a obra dois ex-policiais do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro (Bope), André Batista e Rodrigo Pimentel. Ao descrever seu dia-a-dia na corporação, os dois revelaram uma polícia que precisa recorrer a esquemas de corrupção até para consertar as viaturas que usa. É um retrato realista e que atira contra governo, sociedade e polícia, sem proteger ninguém.

A antecipação dos piratas em relação ao lançamento oficial de Tropa de Elite tem duas explicações. A primeira é a enorme expectativa criada em torno do filme. A segunda é a tolerância da sociedade brasileira diante de um crime que provoca prejuízos de mais de US$ 2 bilhões por ano na indústria cinematográfica. Só nos cinemas brasileiros, a bilheteria caiu mais de 10% nos últimos três anos. Os exibidores atribuem a queda na venda de ingressos ao aumento da oferta de DVDs piratas. “O brasileiro não considera a pirataria um crime. Para ele, é algo menor. O que aconteceu com Tropa de Elite mostra que é crime organizado, sim. Não tem outra definição”, diz Ricardo Difini, presidente do Sindicato Nacional das Empresas Exibidoras de Cinema. “Infelizmente, a estratégia de apreender as mercadorias e prender quem as distribui não é eficaz. O consumidor continua comprando”, diz Barreto, do Ministério da Justiça.
APREENSÃO
Policiais recolhem CDs e DVDs piratas no Rio. Tropa de Elite não é o único, mas o mais copiado

Pelo menos no Brasil, ninguém cogita encarcerar um cidadão que está comprando um DVD pirata. Nem existe respaldo legal para isso. Enquanto a lei prevê prisão de até quatro anos para quem vende, o comprador está sujeito apenas a multa de 3 mil vezes o valor do produto original, ou cerca de R$ 120 mil no caso de um DVD. Uma nova campanha do Ministério da Justiça, em parceria com os exibidores, pretende sensibilizar quem consome esse tipo de produto ilegal. O mote, desta vez, será “comprar produto pirata é mico”. A campanha terá como alvo quem tem entre 15 e 24 anos, idade que corresponde a 70% dos consumidores de pirataria. “Vamos mostrar que quem compra pirata paga mico”, afirma Barreto. O Ministério também vai divulgar dados revelando o real custo da pirataria. Segundo as autoridades, há 2 milhões de empregos a menos no país por causa dos piratas.

Ainda que não se saiba qual será o impacto da pirataria nas finanças de Tropa de Elite, a data de lançamento do filme nos cinemas foi antecipada para o dia 12 de outubro, numa tentativa de evitar um prejuízo maior. Os produtores estimavam que o filme tinha fôlego para vender mais de 3 milhões de ingressos. Também chama a atenção a rapidez da ação policial para combater os piratas nesse caso. Em apenas uma semana, o principal suspeito foi detido. Até nisso o filme parece contribuir com uma reflexão positiva sobre o trabalho policial.

Fonte: Época