quinta-feira, 7 de junho de 2007

Dupla Antenada



Wagner Moura e Fábio Assunção falam do embate entre seus personagens na novela ´Paraíso tropical´, os opostos Olavo e Daniel.
 
 

Um descreve seu Olavo como um tipo esquisito e invejoso e busca num possível trauma de infância desculpa para um caráter tão deplorável. O outro cria seu Daniel como um homem bom, mas com atitude, um mocinho que não precisa ser chatinho. E a fórmula encontrada por Wagner Moura e Fábio Assunção para viverem, respectivamente, o vilão e o herói de ´Paraíso tropical´ parece estar dando certo.

"Os dois são excepcionais. Fábio, para mim, não é surpresa, claro. Fizemos um monte de trabalhos juntos. Já com o Wagner é a primeira vez. Que ator fantástico!", derrama-se Gilberto Braga, autor da trama com Ricardo Linhares, contando que, desde sempre, o embate do canalha Olavo e do virtuoso Daniel estava previsto. Em entrevista, Fábio e Wagner falam de suas criaturas em ´Paraíso tropical´ e de como elas se encaixam no atual momento de suas carreiras.

Com cara de quem não dormiu direito, Wagner Moura não esconde o cansaço atrás dos óculos de grau. Na hora de posar para a capa desta edição, guarda a armação preta e mostra a cara limpa. Simpático, cumprimenta quem passa pela rua e o reconhece.

Baiana, América de Souza, de 63 anos, tem mais sorte e ganha um longo e apertado abraço do ator. Cozinheira de um bar no Jardim Botânico, que também serviu de cenário para a sessão de fotos, além de ser conterrânea do intérprete, ela diz que não se importa se Olavo é o vilão de ´Paraíso tropical´. ´Ele pode tudo´, perdoa América.

Currículo de respeito

Consagrado no cinema, em filmes como Deus é brasileiro, Carandiru e, mais recentemente, Ó paí, ó, alçado ao posto de novo galã da TV com o mocinho de A Lua me disse, sem esquecer peças como A máquina, de João Falcão (uma reviravolta na sua vida, que também virou filme), Wagner vem mostrando que sabe jogar em qualquer posição. Menos no futebol, motivo de sua noite maldormida antes da entrevista.

"Estou assim porque toda quinta-feira fico jogando bola até tarde, num clube aqui pertinho de casa", conta o dublê de centroavante.

"Sabe como é, depois tem aquela cervejinha, o papo com os amigos", complementa.

Casado há seis anos com a fotógrafa Sandra Salgado e pai de Bem, de 9 meses, pode-se dizer que Wagner leva uma vida pacata. Ou num ritmo baiano, sem ofensas.

"O baiano tem mesmo um tempo diferente de estar na vida, de se relacionar com as pessoas, e que eu acho mais saudável. É mais devagar mesmo, não é esse tempo acelerado daqui do Rio. Não perdi minha paz", conta.


Avesso ao glamour

Formado em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Wagner, que já trabalhou em redação fazendo roteiro cultural, odeia a palavra celebridade. E os paparazzi também.

"Talvez quem leia revistas de fofoca precise acreditar nesse mundo de glamour, que é mentiroso. E eu não respeito paparazzi. Não acredito que um cara, quando era garoto, pensou um dia: Quero fotografar a intimidade das pessoas. Eu vou ficar puto se fotografarem meu filho. E tem uma frase que eu detesto: ´É o preço da fama´. Como se eu tivesse devendo algo a alguém porque apareço na TV... Não sou celebridade. Minha vida é sem graça", decreta ele.

"Meu pai veio com 17 anos num pau-de-arara para o Rio. Trabalhou de porteiro, depois fez carreira militar. Estou aqui desde 2001 trabalhando como ator. Comecei a fazer teatro porque quando era adolescente não agüentava o papo da turma que ia para a Disney", declara.

Planos

Quando terminarem as gravações da novela, Wagner diz que precisará voltar a pisar num palco. Provavelmente, em São Paulo.

"A TV Globo tem um poder grande no Rio. Tenho a impressão de que os atores daqui ainda gravitam em torno do Projac. Há um movimento de teatro mas é de gueto", diz o ator.


Adorável vilão

Quem é triste não é bonito. A frase é usada por Wagner Moura para definir Olavo. Esquisito e invejoso são outras palavras usadas pelo ator para falar de seu primeiro personagem no horário nobre. Apesar do perfil sombrio de Olavo, Wagner caiu nas graças do público. As cenas com Camila Pitanga, a prostituta Bebel, têm dado o que falar.

"Começamos a fazer cenas românticas e o Gilberto (Braga) foi comprando a nossa idéia. E é maravilhoso um cara metido como o Olavo se apaixonar por uma piranha. E eu adoro, porque ele fala aquelas coisas para ela, tem aquela pegada, é bom demais", confessa o baiano.

Wagner coleciona uma história engraçada por causa de Olavo. Dono de um fusquinha café-com-leite 68.

"Acho o Fusca um carro incrível. O design, o barulho do motor, tudo nele é lindo"_ diz

Ele teve de ouvir gracinhas quando, outro dia, saindo do Projac, ficou na mão com o carango enguiçado.

"Era de dia e eu estava num baita engarrafamento. Então, as pessoas paravam e gritavam: Olavo, o que você está fazendo nesse Fusca? Cadê o carrão?!. E eu já puto da vida! (risos). Mas o bom do Fusca é que qualquer um sabe consertar. O problema foi logo resolvido".

O ator, que estreou na Rede Globo em ´Carga pesada´, em 2003, sabe o peso que é fazer um vilão de Gilberto Braga. Ele confessa que não consegue imaginar qual será seu próximo trabalho, depois de tantos papéis importantes.

"Fico pensando: Como é que vou me encaixar numa novela de novo? O que pode vir para mim?. Eu já fiz o mocinho da novela das 19h, fiz um personagem histórico (papel-título da minissérie ´JK´), e agora o Olavo. O que poderá me instigar?, pergunta. Pelo menos, trabalhos não vão faltar.

Fonte: Diário do Nordeste