quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Tropa de Elite

E então, a lógica é virada de cabeça para baixo, inverte-se. Agora, a situação da segurança pública nas grandes metrópoles do país é narrada do ponto-de-vista do policial, esse ser humano adestrado para se transformar em cão selvagem. Esse lado desconhecido do combate diário nas grandes cidades é contado de forma ficcional por Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel em Elite da tropa, recém-chegado às prateleiras das livrarias. O mesmo ocorrerá em Tropa de elite, filme que, apesar da semelhança lingüística e de um de seus roteiristas ser o próprio Pimentel, não é inspirado no livro. O longa-metragem, dirigido por José Padilha (Ônibus 174), almeja ser lançado no Festival de Cannes do ano que vem.

É Pimentel o principal responsável pelo tom de realidade do livro e, principalmente, do filme. Ex-policial militar, ele atuou de 1995 a 2000 no Batalhão de Operações Especiais (Bope) da PM carioca, grupo de elite da corporação. Ali, constatou que a segurança pública brasileira está desse jeito não por conta dos policiais, que arriscam suas vidas subindo morros e trocando tiros com bandidos, mas, sim, porque as políticas para o setor são formuladas e colocadas em prática por quem não sabe o que faz. "A polícia não foi criada para prender e nem para matar. Ela foi criada para dar segurança. Quando essa lógica se inverte, todo mundo sai perdendo", acredita o ex-capitão.

Ator policial

O longa-metragem contará a história de dois policiais militares do Rio de Janeiro que dividem o tempo entre as operações nos morros cariocas e as aulas em uma faculdade particular. Ambos estão expostos a realidades diferentes, mas cujo pano de fundo é o mesmo: o uso de drogas e, em última instância, o tráfico de drogas, seja na periferia seja na alta sociedade. Para interpretar um dos protagonistas, o ator Wagner Moura (Cidade Baixa e Deus é brasileiro) já foi selecionado. A idéia de Padilha e Pimentel é utilizar um policial militar de verdade para interpretar o outro. "Estamos fazendo testes com vários PMs", garante o diretor. A escolha do elenco está por conta de Fátima Toledo, a mesma que ajudou a descobrir talentos em Cidade de Deus.

Tropa de elite tratará o policial como ser humano, com todos os seus medos, anseios, temores, crenças. "Quando você analisa a violência sob a ótica do bandido, a tendência é enxergar o policial como o vilão da história", avalia Padilha. "A política, ela sim, está à frente dos problemas econômicos e sociais. É a partir dela que se determina como as coisas serão feitas, como uma ação policial deverá ser feita." O filme está orçado em R$ 6 milhões e receberá um investimento de Hollywood de R$ 3,9 milhões mesmo estando apenas com o roteiro pronto. O início das filmagens ocorrerá em 14 de setembro. As locações serão ruas e favelas do Rio de Janeiro.

É a política de segurança pública adotada no Brasil a principal interseção entre a película e a obra literária. Pinceladas sobre o assunto estão nas linhas e entrelinhas do livro e serão dadas no longa-metragem também. A idéia é tão sedutora que José Padilha não descarta produzir documentário sobre as instituições políticas. "Se as regras de seleção de policiais estão erradas, deve haver algo de errado com a seleção de políticos também", ironiza, referindo-se à corrupção policial.

Pimentel não esconde de ninguém: o livro Elite da tropa é pró-Bope mesmo. "Aqueles policiais são incorruptíveis", garante. A obra mostra PMs atuando com "força máxima e devastadora", como está escrito na contracapa. Apesar de semelhanças sórdidas com fatos propagados pela imprensa brasileira há não muito tempo, Pimentel diz tratar-se de uma obra ficcional. "Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência", alerta. E completa: "Mas isso não quer dizer que as pessoas não possam buscar no cotidiano do Rio de Janeiro ou de qualquer outra cidade brasileira eventos parecidos."

Fonte: Divirta-se