sexta-feira, 13 de janeiro de 2006

Wagner Moura: 'a vida vem me conduzindo'

Wagner Moura: 'a vida vem me conduzindo'

Wagner Moura tem uma bem-sucedida carreira no cinema. Aos 29 anos já atuou em filmes como Abril Despedaçado, O Homem do Ano e Caminho das Nuvens. Mas assim que começou a fazer novelas, com A Lua me Disse, na Globo, no início do ano passado, já estreou como protagonista. O mesmo aconteceu com sua primeira minissérie. Interpretando o personagem título de JK, de Maria Adelaide Amaral, o ator baiano não se deslumbra com a carreira meteórica na TV, onde estreou com o seriado Sexo Frágil, em 2003. Não busquei fazer TV, mas procurei me aperfeiçoar. É aquela história: se você precisa de ferro no organismo, deve comer mais feijão, compara.

Visivelmente bem alimentado com as mirabolantes histórias do Presidente Bossa Nova, Wagner começou sua pesquisa sobre Juscelino Kubitschek e os Anos Dourados há alguns meses, quando ainda gravava a trama das sete na pele de Gustavo. Poucas horas depois que recebeu a visita do diretor Dennis Carvalho no estúdio de A Lua me Disse, e de ter sido convidado para interpretar Juscelino com José Wilker, Wagner mergulhou na composição de JK. Leu tantos livros sobre o ex-presidente que até já conhecia todos os causos que escutou sobre o político quando foi gravar em cidades mineiras, como Diamantina e Tiradentes. Mas a cada hora cai uma ficha de descobertas sobre ele, sua relação com a Medicina, com a política, com a mulher Sarah... Como todos, ele também se transformava muito, afirma.

Tantas mudanças serão refletidas principalmente quando José Wilker passar a interpretar JK, na terceira fase da minissérie. É quando o mineiro finalmente se elege presidente da República, em janeiro de 1956. Para aproximar sua interpretação de Juscelino com a atuação de Wilker, Wagner tem inserido ao personagem um ar mais maduro, com peso e gestual mais envelhecidos. Para mim é complicado, porque não sei ao certo o que o Wilker vai fazer. Estou transmitindo uma maturidade que o Wilker já tem. Ele terá de estar atento ao que fizemos, diz. A seguir, trechos da entrevista concedida por Wagner Moura.

PERGUNTA: Este é o seu terceiro trabalho na TV e o segundo protagonista. Você esperava ser chamado para protagonizar duas tramas tão cedo?

WAGNER MOURA: Não me surpreendo. Não pensava: Ah, um dia vou estrelar uma minissérie!. É um caminho natural que a gente segue na vida, uma troca com o universo. A vida vem me conduzindo. A gente pode o que quiser. Parece que estou tirando onda, mas não é isso. Tudo é conseqüência do que eu tenho trabalhado, do que tenho desejado. Nunca foquei minha trajetória, se é que a gente foca em alguma coisa. Não tenho muito esse negócio de condução de carreira. No Brasil você tem de aceitar os trabalhos que vêm para poder viver. Mas fazer TV nunca foi meu objetivo. Nunca direcionei minha energia para isso. Estou fazendo e estou achando ótima essa experiência.

PERGUNTA: A Maria Adelaide diz que, assim que decidiu fazer a minissérie, pensou no seu nome e no José Wilker. Como você reagiu?

WAGNER: Fiquei feliz da vida. Estava fazendo A Lua me Disse e o Dennis foi lá me convidar. Sempre tive uma simpatia muito grande por ele e gosto da parceria dele com o Gilberto Braga. Nunca tinha feito minissérie, estava experimentando a TV e trabalhar um personagem que já existiu, numa minissérie de época, era muita novidade. Fiquei amarradão, mas não me assustei. Só deu um frio na barriga. Não posso pensar que é uma responsabilidade. Este é um peso que eu não preciso carregar. Vejo como um prazer.

PERGUNTA: Como tem sido fazer uma trama de época pela primeira vez?

WAGNER: É diferente de tudo. Acho que eu tenho uma atitude como ator de conseguir capturar muito bem o cotidiano no meu trabalho. O contemporâneo. Quando eu preciso absorver um momento em que eu não vivi, um jeito de falar que eu nunca ouvi, ao invés de ser limitador, me deu uma liberdade muito grande porque ampliou minha capacidade imaginativa. Me dei ao direito de também inventar como era. Me baseei na pesquisa, mas o resto fui brincando e imaginando. Coloquei os trejeitos dele, mas procurei não imitá-lo. Só o imito quando faço um discurso.

PERGUNTA: Nessa pesquisa, qual a característica de JK que se destacou na sua composição?

WAGNER: Um monte de coisas. Parece lugar comum, mas eu tenho aprendido muito com o Juscelino. A perseverança é importante para todo mundo e ele não desistia dos seus ideais. Tem tanta coisa para esmorecer a gente, mas agora não desisto de mais nada. Sou um canceriano muito sensível com pequenas coisas da vida. Tenho uma parabólica sentimental muito grande. As coisas me afetam profundamente. A perseverança e a alegria dele são contagiantes, de se deixar ser alegre e feliz. A gente tem o poder de transformação. Ele tinha uma fé enorme nele, por conseqüência uma fé muito grande no ser humano, no outro. Isso é muito lindo. Essa minissérie tem esse valor de resgatar a esperança. Os homens juravam que poderiam transformar o mundo. Vivemos numa época de muito niilismo, de desesperança.

PERGUNTA: Você não segurou o choro quando assistiu às primeiras cenas da minissérie. O que esse trabalho tem lhe trazido de emoções?

WAGNER: Sou muito emotivo. Eu choro mesmo (risos). A gente tem trabalhado muito. Eu, que protagonizo a primeira parte, nunca trabalhei tanto na vida. Isso é complicado para um baiano (risos). Eu acordo e venho para o Projac. Só volto para casa na hora de dormir. Chorei quando o Dennis me mostrou o clipe. Fiquei emocionadíssimo porque é um trabalhão da p... Essa simbiose do Juscelino comigo, mais essa mistura, que mostra o que eu penso sobre o que foi esse homem. Isso me emociona.

PERGUNTA: Como foi o preparo físico de um baiano para viver um mineiro tão enérgico?

WAGNER:(risos). Um homem como ele não senta assim como estou sentado, todo relaxado. Ele conversaria com você aqui (se ajeita na cadeira esticando a coluna). No início usei uma cinta para deixar minha coluna sempre ereta, com um nó atrás para eu não conseguir relaxar. Depois, quando me acostumei, pude tirar. Hoje já gravo sem nada e fico ereto, nunca deixo a cabeça baixa. Só fico com meu corpo bacana quando faço shiatsu, porque não malho, não faço nada. Tive de tomar comprimidos de vitaminas para aguentar o grande volume de cenas para gravar por dia.

PERGUNTA: Você está com contrato por obra na emissora. É uma opção sua?

WAGNER:É. O contrato longo me obriga a fazer coisas que eu posso não querer fazer. Não vou me sentir constrangido de ter de fazer algum trabalho que eu posso não estar a fim. Mas vou me sentir muito picareta se estiver ganhando sem dar em troca o que a empresa me exige. É melhor ter uma relação assim. Tem um grande mercado de cinema para eu aproveitar e também não posso deixar de fazer teatro (pausa). A minha casa e minha onda são o teatro. Só tive bons momentos na Globo, mas procuro balancear, ir e voltar. Nesse momento estou muito necessitado do teatro.

PERGUNTA: Você sente saudades do humorístico Sexo Frágil?

WAGNER: Muita saudade. Adoraria fazer um programa com os meninos (Bruno Garcia, Lázaro Ramos e Lúcio Mauro Filho) de novo, fazer humor. Sinto falta do companheirismo deles. Somos muito amigos e era muito divertido trabalhar juntos. Era um dia no parquinho. Ia trabalhar para brincar. Era um porre depilar a perna, maquiar, fazer cabelo, mas só isso era chato. Gravávamos três dias por semana, era ótimo. O humor me dá muito prazer. Talvez agora, que fiz dois personagens seguidos onde o humor não é a característica principal, sinto mais falta de fazer humor.

PERGUNTA: Você chegou a morar em várias cidades quando pequeno. Que lembranças você traz da sua infância?

WAGNER: Tive uma infância maravilhosa. Como meu pai era militar, passei a infância em vários lugares. Morei no Rio, em Salvador, Paulo Afonso e Rodelas, cidades do interior da Bahia. Minha adolescência é que foi muito problemática. Tinha acabado de sair de Rodelas, que era interior, para uma cidade nova, Salvador. Não me identificava com os garotos da minha idade quando fui estudar numa escola particular. O teatro me resgatou para o universo que seria o meu. Era o lugar que eu me sentia confortável. Eu não tinha amigos. Meu apelido era Ovni, porque era estranho e solitário. Sentava no fundo da sala com minhas doidices. O teatro me fez conhecer pessoas que tinham a ver comigo.

Fonte:Diário do Grande ABC