segunda-feira, 22 de agosto de 2005

Minissérie sobre Juscelino Kubitschek estréia em janeiro


Em 2006, quando se completam 30 anos de sua morte e 50 de sua ascensão à presidência da República, Juscelino Kubitschek vai renascer na minissérie JK , da Rede Globo, encarnado primeiro em Wagner Moura e, na segunda fase, em José Wilker. De sua infância em Diamantina, Minas Gerais, aos últimos dias em Brasília, a vida do estadista será repassada em 47 capítulos, a partir de 3 de janeiro. Cada JK está se preparando a seu modo para a missão.

Wilker, dia desses, foi favorecido pela sorte. Estava fazendo prova de roupa para o filme O maior amor do mundo, de Cacá Diegues, quando descobriu que o responsável pelo figurino tinha sido alfaiate do presidente que inventou Brasília:

Em meia hora, fiquei sabendo como o Juscelino gostava dos ternos, como era sua vida financeira, sua relação com as mulheres... Este alfaiate conhecia o motorista do JK e acha que no dia do acidente (que matou o estadista) ele pode ter passado mal ao volante, porque havia sofrido um ataque cardíaco recentemente e estava à base de remédios.

O ator está acostumado a representar figuras importantes: já foi Tiradentes, Antônio Conselheiro, Tenório Cavalcanti. Apaixonado pela história do Brasil, vive cercado de livros sobre o assunto, garimpados em sebos ou nas melhores livrarias. Deles já extraiu inspiração para escrever duas peças de teatro, e há uma terceira em gestação. Tanto conhecimento sobre o passado levou-o a pelo menos uma certeza: a de que é impossível reproduzir fielmente pessoas e eventos.

Leio compulsivamente sobre história e cinema e um pouco de filosofia diz Wilker, que, no dia desta entrevista, na livraria Argumento, do Leblon, comprou cinco livros de uma tacada. Não tenho mais paciência para romance; nos últimos 20 anos só abri exceção para um, Memórias de minhas putas tristes. E ao final dele Gabriel García Marquez diz que com o tempo nos tornamos aquilo que as pessoas acham que somos. Não tenho a intenção de reproduzir JK ipsis litteris. Acho isso pobre, e sou um pouco suicida como ator. Quero fazê-lo verossímil, não verdadeiro.

Wagner Moura ainda está mergulhado no boa-praça Gustavo, seu personagem em A Lua me disse, mas quer trilhar o mesmo caminho em sua estréia na pele de um personagem histórico:

Eu nunca tinha feito novela, e é perigoso cair num piloto automático. Por enquanto, o que estou podendo fazer é ler biografias de Juscelino. Meu processo como ator é muito de piração, de criar, e agora que vou fazer alguém que existiu preciso ver como lidar com isso. O que sei é que não adianta tentar mimetizar, imitar Juscelino, entende? Sei que ele era um cara otimista, empreendedor, alegre, boêmio, que gostava de arte moderna, e vou ter que achá-lo em mim. Sempre haverá um chato para dizer que JK não era assim ou assado, mas não tem jeito. Vai ser a minha cara, o meu corpo; eu é que estarei lá, interpretando-o diz o baiano, que precisará disfarçar o sotaque.

Wagner, na verdade, tem feito mais. Leu que JK era operador de código morse, e decidiu aprender a técnica. Como o político começou a vida como urologista, costuma conversar com a irmã, que é médica. Também tem estudado sobre o Brasil da época.

Wilker, por sua vez, tem sido procurado por várias pessoas que conheceram Juscelino, dispostas a emprestar-lhe material ou doar-lhe tardes de conversa. Ainda não sabe se e o que vai aceitar:

Um personagem assim tem muitos donos; muita gente sabe como ele era, o que pensava. Todo ator tem que acumular o máximo de informações sobre quem vai representar, mas é preciso filtrá-las, para não correr o risco de se confundir.

Os dois atores terão mais subsídios em breve. Dennis Carvalho, diretor-geral da minissérie, pediu à produção que selecionasse material em vídeo para distribuir para o elenco, e está organizando um workshop que antecederá as gravações. Entre os palestrantes estará Ronaldo Costa Couto, ex-ministro e historiador, autor de Brasília Kubitschek de Oliveira, livro que serviu de base para os autores da trama, Alcides Nogueira e Maria Adelaide Amaral.

Fonte: Jornal o Globo